Mundo

Meus filhos sobre mim

Escrito por Redação

Por Nanna de Castro (*)

Minha mãe gostava de ficar sozinha – meus filhos irão dizer. Era com meu pai que assistíamos filmes no DVD. Ela nos dispensava delicadamente e ia para o quarto só, com o notebook debaixo do braço. Minha mãe coexistia num mundo paralelo de personagens que inventava. Para ficar com eles, despachava sorridente qualquer individuo de carne e osso, até nós.

Meus filhos irão dizer, sem mágoa, espero: minha mãe se incomodava quando avançávamos para ela juntos, ansiosos por ela, sobrepondo falas, falando alto, exultantes de criancices, depois de um dia inteiro na escola. Um incômodo cheio de amor de quem baixou as muralhas vitais do seu silêncio para podermos entrar. O território naturalmente devassado da maternidade a assustava. E às vezes pedia: saiam. Era raro, mas acontecia de não caber mais nada nela, muito menos três crianças e seu oceano de demandas.

Mamãe estava sempre lá nas necessidades, na dor, no medo, no colchão molhado de madrugada, segundos depois do tombo, mas pedia licença e deixava a mesa do jantar se considerasse que estávamos sobrepujando o seu limite para o desagradável.

Também nos avisava – meus filhos lembrarão crescidos – quando estava subjugada pelos hormônios ou pelo cansaço e advertia: hoje não, hoje menos, hoje se atenham milimetricamente ao limite. E saberão que os amei intensamente nas intersecções possíveis, menos longas que profundas, e com toda honestidade do meu sim e do meu não.

Minha mãe tinha de nós um estranho desapego, um jeito de nos lembrar que não éramos dela mas do mundo e ela, tão pouco, era nossa. E isto foi triste e bom. E por isso, muitas vezes, escolhíamos chamá-la pelo nome e não de mãe, e era natural. Meus filhos irão dizer. Com compaixão, com generosidade, melhores que eu. Assim espero.


(*) Mineira, residente em São Paulo, Nanna de Castro é escritora, roteirista, autora teatral, publicitária e atriz. Suas peças teatrais foram montadas em várias cidades brasileiras e também na cidade do Porto em Portugal. Tem trabalhos premiados em teatro, cinema e publicidade. Lançou em 2014 pela editora Paulinas uma compilação de textos do seu blog com o título “Só as Magras e Jovens São Felizes – Reflexões de Uma Mulher de 40 Sobre Um Mundo Nada Fácil” e publicou recentemente pela editora Chiado o livro “O Céu Não é Um Lugar”.

Sobre o autor

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