Colunistas Crônica Lívia Guimarães

A arte de palpitar

Escrito por Lívia Guimarães

Se tem uma coisa da qual ninguém, mas ninguém mesmo, está a salvo é de palpite alheio.

Palpitar é instinto natural, condicionamento genético, herança cultural, enfim, coisa contra a qual é bobagem lutar.

Não, não estou aqui para criticar palpiteiros. Muito pelo contrário, parto em sua defesa porque também sou legítima representante da classe. E quem não é? Já dei muito palpite na vida e não pretendo parar.

Palpiteiros exageram às vezes, mas também têm seus méritos quando nos fazem enxergar outras possibilidades.

Eu, por exemplo, prefiro os palpiteiros assertivos, convictos, que não deixam brecha para negativas. Esses eu respeito, pelo despudor e amor próprio. Em geral, os palpiteiros dessa linhagem têm todos o mesmo ritual: franzem as sobrancelhas, balançam ligeiramente a cabeça e com voz grave emitem o veredito. Gosto disso.

Já os hesitantes, que falam pisando em ovos, apelando para rodeios na hora de opinar, esses me irritam. São sub-reptícios, fracos na investida. E pior, deixam brechas. Palpite que é palpite tem que nos pegar de supetão, sem dar tempo para reação.

Há momentos clássicos para palpites: casamento, maternidade e mudança de casa. Aí surgem os picos no gráfico.

No meu primeiro casamento, que, aliás afundou depois de curtos dois anos, ouvi um impagável, durante a recepção, emitido por uma velhinha magra rabugenta, casada há muitos anos:

– Minha filha, casamento dá trabalho. E o pior, muitas vezes dá errado. Não se descuide, fique em forma. Nunca se sabe quando virá o próximo…

Esse foi certeiro. Três anos depois eu me casava novamente.

Quando minha filha Laura chegou, aos 3 meses de idade, nova onda. Dessa vez mais forte.

De todos os palpites que recebia, os que mais gostava era da moça que trabalha em casa, a Jaciara. Mãe experiente, com filho temporão da idade da Laura, ela muito me ajudou com seus conselhos. A tal ponto que seu apelido passou de Jaci para Jaciatra, a pediatra da Laura.

Há duas semanas me mudei de casa. Novo pico.

O resultado da minha análise sociológica até agora foi: há basicamente três perfis. Os empáticos, que se preocupam em investigar hábitos da casa, necessidades da família e demonstram alguma flexibilidade na hora de negociar. Os estetas, beleza qualquer custo, que se perdem nos próprios devaneios propondo soluções que só funcionam durante sua visita (a gente que se vire depois). E os que não estão para brincadeira. Esses querem que a coisa funcione mesmo que seja na base da feiura.

Qual será o próximo? No meu caso, com 48 anos, aposto que a menopausa. Reposição hormonal? Aceito prós e contras.

Sem os palpites que graça a vida teria? Aliás, estou até pensando em lançar um novo blog: Palpite Certeiro.

Sobre o autor

Lívia Guimarães

Proprietária da Ponto Luz, Consultoria de Marketing.

Escreve no seu blog maletaamarela.com.br, por puro prazer, textos sobre o cotidiano através de um olhar sincero e divertido.

Blog: maletaamarela.com.br

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