Crônica Jany Vargas

A esquisita vai ganhar maçãs!

Escrito por Jany Vargas

Sou um bicho esquisito. Ok, quem não é?

Depois que descobri que tem mais cinco Jany Vargas no facebook, perdi totalmente a ilusão de que alguma coisa acontece só comigo nessa vida. Veja bem: Jany vem de Jayme e Eny, papá e mamã! Uma invenção inventada por eles e por mais cinco famílias, no mínimo!

Como posso fazer drama com o que acontece com essa Jany aqui teclando, se acontece com ela o mesmo que acontece com as outras Janys e com todo mundo do planeta? Drama se alimenta de exclusividade não é?

Por exemplo: decepção amorosa. Quantas pessoas estarão chorando por isso nesse exato minuto? Se juntasse todas as lágrimas daria para fazer um mar! E raiva? Se conseguíssemos aproveitar essa energia gerada por ela apenas na última hora, meu Deus!

Enfim, ok, não me levo tão a sério a ponto de achar que valha a pena falar da minha esquisitice, mas… se eu não falar, quem falará? A outra Jany dos decotes generosos do facebook não sabe de mim. Não sabe que eu ainda não sei o que serei quando crescer.

É esquisito ainda achar que se vai crescer quando se tem 58 anos. Puxa vida, pensando bem, sou uma esquisita em boa companhia. Acabei de lembrar de um monte de gente que ainda está, como eu, esperando o trem da vida passar para subir nele!

Toda essa conversa para dizer a boa nova! A esquisita não é mais esquisita nesse quesito. Já sei o que vou fazer quando crescer. Aquilo que venho fazendo há muitos anos: professora de dança circular!

Poderia ser padeira, médica, enfermeira, cientista, do lar, da rua, do mar, do céu, astronauta, lunática, mas não… sou uma candidata a ganhar maçã: uma professorinha! Aquela que ensina o que o outro ainda não sabe.

Um dia girando na roda pensei: “Foi a dança que me escolheu e não o contrário”. Sendo assim eu pergunto para a dança circular: “O que você quer de mim?”

Ela respondeu que quer de mim o mesmo que quer de milhares de professoras que estão por aí : Que a dança circular não morra! Que ela continue viva, aquecendo os corpos, fazendo as mãos se juntarem, colaborando para criar sentimentos de pertencimento, de conexão com os outros, consigo próprio, com a música…

De vez em quando alguém me conta que dançar em roda a tirou do isolamento e da depressão. Nesses momentos a dança dá uma piscadinha para mim e eu agradeço por ter sido escolhida por ela.

Minha filha entrevistou uma garota que vive na cidade grande, Mayara Boaretto Rocha, que se interessou fortemente pelas Parteiras, Benzedeiras, Xamãs, Mães, Avós e Conselheiras e seus conhecimentos e sabedorias tradicionais. Ela está terminando um filme (Mulheres da Terra) sobre algumas delas.

Mayara percebeu nessa caminhada que todo o conhecimento maravilhoso que essas mulheres têm está ameaçado de se perder pela hospitalização dos partos, por ser transmitido apenas oralmente e porque a maioria das meninas da região delas não está disponível para aprender o que elas têm para ensinar.

A boa notícia é que, felizmente, assim como Mayara, muitas jovens dos centros urbanos estão respondendo ao chamado desses conhecimentos ancestrais que não querem morrer. Quantas doulas estão se formando, quantos partos estão sendo feitos sob a luz dessa tradição em cidades grandes como São Paulo? Muitos! Um grande movimento acontecendo de valorização dessas práticas.

Sim, a esquisita aqui está dizendo que não estamos sós! Não são só humanos se comunicando entre si. O mundo é vivo. O conhecimento nos recruta… Eu disse que sou esquisita! Avisei!!!

Imagens do filme Mulheres da Terra de Mayara Boaretto Rocha

 

Sobre o autor

Jany Vargas

Transita no universo das Danças Circulares e é escritora. Escreve para levar ideias daqui para ali. Para contar histórias, falar do seu tempo, participar do diálogo, contribuir.

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