Colunistas Moda Rafaella Britto

A estética glam

Escrito por Rafaella Britto

Glitter, glamour, androgenia e rock ‘n’ roll.

Na década de 1970, o rock ‘n’ roll viveu seu período de maior expressividade artística: o glam.

Para compreender as particularidades deste subgênero e seu impacto revolucionário sobre a cultura popular, é necessário compreender o panorama sócio-cultural da época: a geração baby boom (juventude da década de 1960) tencionava derrubar os velhos valores a partir de suas bases. Neste contexto, surge a “revolução sexual” (conjunto de perspectivas sociais que desafiava as normas vigentes e os códigos de conduta moral correspondentes às relações humanas e ao comportamento sexual). Pregava-se a ausência de gênero, e homens e mulheres eram semelhantes em gestos e aparência.

Caetano Veloso e Gal Gosta, 1968

Caetano Veloso e Gal Gosta, 1968

O rock tornou-se porta-voz desta geração, ansiosa por liberdade e pelo novo. Eram sucessos as viagens sonoras alucinógenas dos discos psicodélicos do Velvet Underground e Pink Floyd; o ultrarromantismo e melancolia de Jim Morrisson; a cadência dos hits dos Rolling Stones. A contracultura teria seu marco inicial no lendário Festival de Woodstock, realizado entre 15 e 18 de agosto de 1969, em Nova York, influenciando o comportamento de uma era.

No Brasil, a Tropicália empenhava-se na construção de uma identidade nacional, aliada às correntes vanguardistas do mundo. Os jovens Mutantes – Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee -, driblando a censura da ditadura militar, introduziram a guitarra pela primeira vez à música brasileira, eternizando-se como os criadores do rock no Brasil, e uma das maiores bandas da música universal.

Os músicos Sérgio Dias, Arnaldo Baptista, Jorge Ben Jor, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee e Gal Costa - 1968

Os músicos Sérgio Dias, Arnaldo Baptista, Jorge Ben Jor, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee e Gal Costa – 1968

A virada da década intensificou a esperança e o idealismo dos anos anteriores. O rock adquiriu novas sonoridades e roupagens, com brilhos e sintetizadores: a este gênero chamamos glam (abreviação de “glamour”).

O fenômeno glam originou-se na Inglaterra em 1971: jovens extravagantes, vestidos em elastano, plumas, glitter, paetês, purpurina e saltos plataforma, conquistavam espaço significativo na música e na cultura popular, com performances recheadas de erotismo, exalando frescor sexual. O glam rock tornou-se o terror das velhas gerações, criadas sob o conservadorismo, e assustadas com o espírito corruptível da juventude. A revolução adolescente era traduzida em músicas como “Teenage Rampage”, do Sweet, e “Children of Revolution”, do T. Rex.

Mickey Finn e Marc Bolan (T-Rex)

Mickey Finn e Marc Bolan (T-Rex)

Marc Bolan (T-Rex)

Marc Bolan (T-Rex)

 

 

 

 

 

 

O glam teve como um de seus principais representantes o roqueiro David Bowie. Bowie é também conhecido como “camaleão do rock”, devido a singular capacidade de renovar sua imagem ao longo dos tempos. Em 1972, Bowie alcançaria êxito mundial com a criação de sua primeira persona, o rock star extraterrestre Ziggy Stardust, cuja história é narrada no álbum-conceito “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars”. O personagem foi sustentado pelo sucesso do hit “Starman”, considerado um dos principais hinos do glam rock.

David Bowie

David Bowie

David Bowie

David Bowie

David Bowie

David Bowie

 

 

 

 

 

Outras bandas e músicos de grande sucesso no período foram Roxy Music, Twisted Sister, Motley Crue, Alice Cooper e Lou Reed.

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Brian Eno (Roxy Music)

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Bryan Ferry e Brian Eno (Roxy Music)

 

No Brasil, o cantor Edy Star foi o primeiro artista brasileiro a assumir publicamente sua homossexualidade. A banda Secos e Molhados introduziu ao rock nacional lirismo associado a performances exóticas, combinando poesia, figurinos tribais e histórias folclóricas. Após sua saída dos Mutantes, Rita Lee juntou-se à banda Tutti Fruti e, juntos, lançariam alguns dos mais expressivos álbuns do glam nacional, como “Atrás do Porto Tem Uma Cidade”, de 1974, e “Fruto Proibido”, de 1975.

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Edy Star

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Ney Matogrosso (Secos e Molhados)

 

 

 

 

 

 

 

No cinema, o glam rock está presente no musical de 1998 “Velvet Goldimine”, estrelado por Ewan McGregor, Jonathan Rhys Meyers e Christian Bale. O filme retrata a liberação sexual da juventude de 1970, sob o olhar de personagens que são alusões a figuras como Bowie e Iggy Pop. “Velvet Goldmine” foi indicado ao Oscar de Melhor Figurino.

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Jonathan Rhys Meyers e Ewan McGregor em “Velvet Goldmine” (Todd Haynes, 1998)

Os estilistas da atualidade pegam carona na era mais glamorosa do rock: os desfiles inspirados neste período são espetáculos de cores, música e criatividade.

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Jean-Paul Gaultier – Primavera/Verão 2013

 

Sobre o autor

Rafaella Britto

Estilista, blogueira, jornalista e escritora. Amante de música, cinema e literatura. É idealizadora e editora do blog Império Retrô, onde une sua paixão pela arte e a palavra escrita, abordando a moda em seus contextos históricos e comportamentais. Paralelamente, desenvolve conteúdo de moda para sites especializados.

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