Colunistas Daqui Geni Alburquerque

A Nossa Granja Viana

Escrito por Geni Alburquerque

A sensação inebriante de abrir a janela e ver todas aquelas cores, respirar fundo sentindo o cheiro de terra molhada misturado aos aromas produzidos pelas flores e se encantar com a música que vem do canto dos pássaros, desperta em mim e em quem vive nestas condições na Granja Viana e região, a vontade de sonhar um futuro que mesmo sendo recheado de boas lembranças possui os pés no presente.

Caminhar e pedalar nos permite ver a vida se desdobrar diante de nós ao nível dos olhos, proporcionando um contato direto entre as pessoas e a comunidade do entorno, vivenciar experiências diversas com muitas informações novas, o que se torna impossível dentro de um veículo.

Se Cotia foi inicialmente explorada através de diferentes monoculturas, atualmente percebemos que a cidade está sendo preparada para os veículos em detrimento das pessoas e da biodiversidade existentes.

O espaço público em Cotia tem sido reduzido em prol do tráfego, dos estacionamentos e toda atividade ao ar livre recebe um impacto negativo em função da poluição, insegurança e ruído.

Muitos desconhecem o centro de Cotia que possui identidade própria, que se reflete nos vínculos que são estabelecidos em relação aos espaços públicos da cidade e seus elementos de referência.

Se nos privarmos do exercício de acompanhar as decisões que são tomadas pelos governantes do momento, veremos a semelhança em todos os bairros e não apenas na Granja.

Alguma vez, você caminhou pelo centro de Cotia?
Não?

Vale o passeio porque mostra o quanto somos capazes de moldar um bairro e constatarmos que a Granja Viana e seus arredores permitem experimentar uma permanência maior ao ar livre, com espaços que poderiam ser ocupados de maneiras agradáveis, formando áreas de transição suaves entre o meio residencial e o público.

O (a) cidadão (ã) é cobiçado por prestadores de serviços, pelo comércio e principalmente pelo governo como arrecadador de impostos, sendo desejável que este se mantenha acessível a uma pequena distância, daí porque tantos veículos os separam?

Enquanto permanecemos dentro de um veículo, deixamos de apreciar muita beleza em cores e formas e nos tornamos passivos e inativos diante de paisagens monótonas.

Ser e estar cidadão não significa apenas pagar tributos e sim atuar no local onde se vive, porque podemos transformar ruas, praças, parques lineares ou não, em salas de estar ao ar livre dotados com a beleza que existe na biodiversidade da Mata Atlântica, o nosso melhor patrimônio.

Um chamado à realidade se impõe mesmo quando delegamos a resolução de nossos problemas ao poder público e omitimos nossas responsabilidades como cidadãos apenas porque pagamos impostos.

Grandes espaços áridos e grandes edifícios marcam um ambiente urbano, socialmente formal e frio, que capturam os ventos que somados à intensa iluminação, nos privam até da observação das estrelas no céu.

A verticalização isola, eleva a desigualdade social e nos torna indiferentes às inter-relações que existem entre o espaço, a sociedade e a biodiversidade, nosso principal diferencial.

Debatemos incessantemente sobre a desigualdade entre seres humanos e deixamos milhares de espécies serem obrigadas a se refugiarem em outros locais quando poderiam conviver conosco proporcionando saúde, equilíbrio ambiental e qualidade de vida para todos os habitantes.

A biodiversidade da Mata Atlântica que existe em áreas preservadas, regeneradas e grandes jardins da nossa região, possui um valor incalculável de caráter ecológico, genético, estético, científico, social, econômico e cultural.

Sua redução compromete a disponibilidade de recursos naturais e sustentabilidade do meio ambiente que é de todos nós.

Estamos realmente dispostos a substituir a liberdade de ir e vir e subtrair toda esta riqueza natural e social pela imobilidade do interior de um veículo?

Imagine um domingo, em que o miolo da José Félix, um dos locais mais charmosos da Granja , fosse interditada para os veículos e pudéssemos constatar o tamanho do espaço público que foi tomado de todos nós.

Ouso sonhar neste espaço uma praça sombreada por árvores nativas e com flores por todos os lados e você?

 

Sobre o autor

Geni Alburquerque

Autodidata multidisciplinar. Sócia-proprietária da Taúna e consultora em paisagismo ambiental e jardinagem.

Blog: qualidadedevidaejardim.blogspot.com.br

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