Coletivo Colunistas Joana Lee Mortari

A pergunta do momento

Escrito por Joana Lee Mortari

Esta semana tive duas boas conversas que me despertaram, sobre confiança e sobre doação. Lendo o novo blog de uma pessoa que admiro, o Boas Conversas, me senti chamada a retomar minhas reflexões escritas. Cá estou.

Estas boas conversas que tive me fizeram pensar sobre o que estamos chamando de doação. Para começar, fui buscar o sentido etimológico da palavra e descobri que doar significa “dar um presente, dar um dom”. Fiquei pensando. Quando doamos, vamos dizer, um casaco que não usamos mais (exemplo de paulistana congelada), pegamos o item, escolhemos o destino, e doamos, certo? Imagina se, ao fazer isso, colocássemos instruções… “Olá, você está recebendo meu casaco em doação, mas só pode usar: em dias ímpares, para jantar fora e ir ao cinema”.

Deu risada? Bom sinal. Agora me fala o quanto isso é diferente de doar recursos para uma organização social e dizer que o dinheiro só pode ser usado para, digamos: material pedagógico, alimentação e 30% para recursos humanos. Isso é doar?

A sensação que eu fico é que estamos dando nomes diferentes para as coisas, como o Marcelo do livro da Ruth Rocha, lembra dele? Aquele que queria fazer uma moradeira nova para o latildo…. Só que não me parece que estamos dando nomes diferentes em busca de mais sentido. O que estamos fazendo quando doamos recursos e dizemos como ele tem que ser usado?

Estamos “garantindo” que quem recebe vai “usar bem” o recurso. Quando fazemos isso, estamos partindo de um princípio: o de que nós, de onde estamos, sabemos mais. Seja porque somos grandes, eles pequenos, seja porque somos escolarizados, eles talvez não. Provavelmente o motivo é diferente conforme o caso ou a pessoa (física ou jurídica). Mas o fato é que, quando doamos e dizemos como o dinheiro precisa ser usado, estamos controlando o uso do dinheiro.

Tudo bem… Vamos combinar que abrir mão de controle é mesmo dureza. Eu sou campeã de deixar as minhas filhas com meu marido e dizer, tintim por tintim, o que ele precisa fazer. Para a minha sorte, vez ou outra ele me espelha… e eu, que achava que estava cuidando de deixar tudo lindo e organizado para ele, levo o maior susto. Eu estava mesmo era assegurando um espaço controlado, para que tudo saísse da forma como eu acho que deveria sair. Sempre cai aquela ficha de orelhão de Itu.

O controle aparece quando – conscientes ou não – não nos é possível confiar no agir do outro. E porque, então, nós não estamos conseguindo confiar?

Esta, para mim, é a pergunta do momento. Se você parar de ler por 30 segundos, certamente virá com pelo menos 10 motivos absolutamente inteligentes, para você, para não confiar. E é por isso que, deste lugar, este singelo pensar por escrito pode seguir muitos e diversos caminhos.

Porém, quem me conhece sabe que eu ando muito tocada pela definição de confiança de um cara chamado Lex Bos. Aliás, para quem se interessa por Steiner, mas não consegue ler, como eu, Lex Bos é um gênio.

Em seu livro Confiança, Doação e Gratidão, Lex diz que confiança tem a ver com vontade e com agir. [Sugiro ler bem devagar, daqui em diante, e cuidado com as fichas que poderão cair em sua cabeça]. Ele diz que confiar é abrir espaço para o agir do outro. O outro, ao ocupar este espaço, expressa a vontade dele.

Genial. Dá pra parar aqui. Mas ele continua…

Lex diz que abrir este espaço exige um esforço grande de mim. Primeiro, exige que eu contenha a minha vontade, porque só quando eu contenho a minha vontade, o espaço se abre… Porém, se eu faço isso, a verdade é que não sei como o outro vai preencher este espaço, não é? E isso me torna vulnerável à vontade do outro. Eu sinto medo.

Ora, se sinto medo, para dar este espaço que permite o agir do outro eu preciso de coragem.

Bonito, né? Quando doamos (sem controlar o uso do que doamos) estamos sendo corajosos.

Se quisermos quebrar este paradigma da falta de confiança, precisamos de coragem.

Sobre o autor

Joana Lee Mortari

Responsável pelo Desenvolvimento Institucional da Associação Acorde, uma organização que promove o desenvolvimento de crianças e jovens na periferia de Embu das Artes e Articuladora do Movimento por uma Cultura de Doação. Membro do conselho do Instituto Geração e da Associação Cairuçu. Formada em Direito pela Universidade Mackenzie e pós-graduada (LL.M) pela Faculdade de Direito da Universidade da Pensilvânia, nos EUA. Pós-graduanda no programa “Reflective Social Practice” pelo Crossfields Institute (UK) e Alanus University em Bonn, na Alemanha.

Acorde: http://acorde.org.br

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