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A Vitória que conheci

Escrito por Beto Dixo

vitoria noiteNo final de 2016 resolvemos, eu e um grupo de velhos amigos, conhecer o Espírito Santo, estado que poucos paulistanos visitam e que tem algumas peculiaridades interessantes: o sul se parece com o Rio de Janeiro, o norte já tem cara de Bahia, nas praias só tem mineiro e a moqueca capixaba não leva dendê… E, de quebra, o ES vem sendo bem administrado nos últimos anos, o que não tem acontecido com os vizinhos do sudeste, MG e RJ, as contas públicas estão equilibradas e suas cidades têm índices de desenvolvimento humano razoáveis para o país.

Chegamos ao aeroporto de Vitória bem cedo, o dia estava claro e a paisagem já impressiona vista lá do alto. A capital é formada por um arquipélago de ilhas ligadas ao continente por várias pontes monumentais.

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Pedra Azul

Do aeroporto seguimos, numa van fretada, diretamente para a Alto Caparaó para visitar, durante três dias, o Parque Nacional do Caparaó e seus arredores, na divisa com o estado de Minas Gerais. São cerca de 250 quilômetros de pista simples, mas bem conservada, passando pelo trecho mais bonito da serra capixaba, região de colônia predominantemente alemã, com cidadezinhas pitorescas e uma paisagem deslumbrante. Destaque para Pedra Azul, impressionante monólito que dá nome a um parque estadual e engloba boa parte do município de Domingos Martins.

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Pico da Bandeira

Mas o Parque Nacional do Caparaó é o grande atrativo da viagem. Criado em 1961 abriga o terceiro pico mais alto do país, o Pico da Bandeira (2.891 m.) e é administrado, algo precariamente, pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). É permitida a circulação de veículos de passageiros, mas a melhor opção é contratar guia com jipe para explorar os mirantes e as cachoeiras, dentro fora do parque. A subida ao pico a pé, a partir de Tronqueira, até onde chega o jipe, não é para qualquer um: são 14 quilômetros (ida e volta) num percurso puxado de 7 horas. Só quatro entre nós, que éramos onze, todos com mais de sessenta anos, se aventuraram e apenas dois chegaram até o fim da trilha.

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Palácio Anchieta, na Cidade Alta

Retornamos à Vitória para passar o réveillon e os últimos dias da viagem, e a cidade encantou a todos, havendo inclusive quem cogitasse em se mudar para lá, por que não? A capital tem pouco mais de 300 mil habitantes e a região, que congrega mais seis municípios, tem população estimada em 1,900 milhão.

O Centro, conhecido como Cidade Alta, não conserva grandes atrativos do patrimônio histórico, mas a orla marítima é extensa, bem urbanizada, o mar calmo e as praias, tanto em Vitória quanto na vizinha Vila Velha, são agradáveis e têm infra razoável. Com seus jardins e calçadões, lembram muito a paisagem carioca, só que com menos gente e sem arrastões.

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Jardins e calçadões nas praias de Vitória

Fizemos a maioria dos passeios a pé, ou utilizando transporte público para alcançar as praias mais distantes e nos sentíamos muito seguros, inclusive à noite.

Isso tudo foi nos primeiros dias de janeiro. No início de fevereiro, nem tínhamos ainda deletado o grupo da viagem no Whatsapp, o que começara com uma manifestação das mulheres dos PMs no portão dos quartéis da corporação, impedindo a saída dos policiais, gerou uma onda de violência que paralisou durante mais de uma semana a Grande Vitória, com uma sucessão de homicídios, saques e destruição do patrimônio público.

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Foto: Nunah Alle

Houve intervenção de tropas do exército, tudo entrou em colapso e as notícias horrorizaram o país.

Comentário perfeito de Leandro Karnal em sua coluna semanal do Caderno 2 (Estadão de 5 de março), que transcrevo, para finalizar: “ O que ocorreu no Espírito Santo foi a ruptura da blue line, expressão que os americanos usam para definir a frágil linha que separa a sociedade ordeira da barbárie violenta. A coerção entrou em colapso e, como nosso mundo tem pouco consenso, o pandemônio mesmerizou o país. Houve a desordem óbvia de bandidos estimulados pela falta de repressão. Houve o menos claro surto de saques feitos por cidadãos comuns até aquele instante. “

moqueca capixaba restaurante papacos foto luciano secchin

Moqueca capixaba; foto luciano secchin.

E termina o articulista, citando dois filósofos que refletiram sobre a natureza do mal: “ … (Thomas) Hobbes e (Hannah) Arendt comeram moqueca capixaba lamentando tudo, mas entreolhavam-se com muxoxo indisfarçável – Eu não disse? ”

Sobre o autor

Beto Dixo

Consultor aposentado, viajante ainda na ativa, apaixonado por literatura e cinema, curioso por coisas e pessoas.

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