Colunistas Crônica Lívia Guimarães

Adoção: Capítulo I – Fazendo as malas

Escrito por Lívia Guimarães

Ter uma filha adotiva era um sonho.

Para mim, a história era a seguinte: minha criança, Perci e eu combinamos de nos reencontrarmos nesta vida.

Por impossibilidade de termos filhos biológicos, nossa filha viria por outra forma, demonstrando já de cara seu imenso amor e generosidade. Baita malabarismo esse para chegar até nós.

Juntos, percorreríamos um caminho até que isso acontecesse, na hora exata em que estivéssemos todos prontos, em absoluta sincronia.

Romantismo? Pois foi assim. E tenho tanta certeza que chego a rir da crença sobre a aleatoriedade da vida.

Já era a Laura. Sempre foi.

Se acredito no acaso? Claro! Para a marca de suco nova porque a preferida estava em falta, para a gasolina que acabou porque sou distraída…

Aos 37 anos começava minha viagem. E a Laura, a dela.

Às vezes imagino que ao começar a fazer nossas malas para nos reencontrarmos, conversamos muito à noite, enquanto eu dormia. Fizemos planos, contei seus apelidos, combinamos a cor do seu quarto, se eu deixaria passar batom logo cedo…

Uma coisa que adorava em tudo isso? Não saber como seria essa garotinha. Gostava de imaginá-la de vários jeitos, como se isso fizesse parte da surpresa. Gordinha, morena, magrinha cabeluda, séria, risonha. Nos meus melhores sonhos não imaginava que anos depois chegaria em meus braços um bebê tão encantador como a Laura. Bem, falarei muito sobre ela, mas depois.

Com tantos filhos adotados, o Perci desconhecia o processo nos dias de hoje, as coisas mudaram muito…e eu, sabia menos ainda.

O primeiro passo foi procurar o Fórum de Cotia, cidade onde residimos.

Por puro preconceito, fiquei insegura em ter que dar entrada em Cotia. Sabe aquela coisa? Se em São Paulo as coisas são como são, imagina aqui? Putz, nesta hora queria morar ao lado da Praça João Mendes.

Outro medo foi o sonho da minha vida depender do Governo. Sou brasileira e, como muitos de vocês, descreio do país, da correção das coisas por aqui. Será que o tal cadastro nacional funcionava? Será que a Assistência Social não botava um dedinho na hora de encaminhar uma criança? Simpatia por um ou outro casal não interferia de verdade no processo?

Além disso, com todo respeito aos amigos funcionários públicos, sempre trabalhei no setor privado e, de fora, a impressão que a gente tinha é a de que nada funcionava. O ritmo pautado por recessos, troca de juízes e até as dependências do Fórum, decadente, com a sua papelada empilhada e aparente, tudo era um grande gerador de ansiedade. Desse jeito tartarugas escapam. E se minha filha escapasse?

Demos entrada na intenção de adoção, preenchendo formulários relativamente simples, que seriam depois protocolados e resultariam em uma entrevista com uma psicóloga. Tudo naquele ritmo que vocês conhecem.

Perci e eu somos dois controladores por natureza, mas aceitar o processo como ele se apresentava, resignar-se, confiar, foi a única saída.

Neste momento minha irmã me ajudou com uma pergunta: E por que é que você acha que ao tentar engravidar as coisas estão sob nosso controle?

Sabedoria de mãe de cinco filhos.

No próximo post conto mais!

Sobre o autor

Lívia Guimarães

Proprietária da Ponto Luz, Consultoria de Marketing.

Escreve no seu blog maletaamarela.com.br, por puro prazer, textos sobre o cotidiano através de um olhar sincero e divertido.

Blog: maletaamarela.com.br

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