Colunistas Crônica Lívia Guimarães

Adoção: Capítulo II – É menina!

é menina
Escrito por Lívia Guimarães

A entrega da papelada do processo de adoção me trouxe uma sensação inédita, pela primeira vez havia algo irreversível para mim. Um filho sempre é, logicamente, mas buscar intencionalmente alguém e trazê-lo para a minha vida era a maior responsabilidade que eu já havia assumido.

Junto, veio o sentimento de que esta criança merecia a melhor mãe que eu pudesse ser, toda a minha dedicação, pela coragem de percorrer este difícil caminho até sua família.

Aguardamos um par de meses até sermos chamados para a uma entrevista com a psicóloga do Fórum.

O Perci, mais calejado que eu na lida com o pessoal da Assistência Social (já tinha 5 filhos adotados, lembram-se?) encarou mais numa boa. Eu fiquei bastante ansiosa. Quem não ficaria?

A avaliação do casal e a minha avaliação como candidata a mãe era algo necessário, ninguém questiona isso, mas o fato é que existe aí uma injustiça divina. Somente mães adotivas têm que se provar capazes.

Eu não tinha experiência com psicólogas, o máximo que eu havia tido eram entrevistas de emprego e eu temia avaliações sutilmente intimidadoras, feitas pra te pegar na curva.

Meu casamento era estável, feliz e eu rezava para que conseguíssemos passar essa mensagem, para que a psicóloga fosse experiente o suficiente para relevar meu nervosismo.

No dia fomos Perci e eu, de mãos dadas e suadas, para a sessão.

Ensaiei muito, escolhi as melhores palavras, o gestual mais adequado…mas na hora não precisei de nada disso. Imaginem uma mulher simples, compreensiva sobre o que aquilo significava para nós, segura, calma ao falar e visivelmente bem intencionada. Essa era a Regina, a psicóloga.

Em uma pequena sala bagunçada do Fórum, fomos ouvidos por aquela mulher, como se não houvesse outro compromisso no seu dia, como se aquela fosse sua única prioridade.

Eu sabia que em algum momento da conversa falaríamos sobre o perfil da criança desejada, algo muito sensível e mais uma peculiaridade da maternidade adotiva.

O assunto martelava minha cabeça sem parar em forma de conflito. Por um lado sonhava e acreditava que havia uma filha menina no meu destino (já falamos sobre isso, lembram-se?), por outro lado, tinha medo de interferir no destino impedindo que um filho homem chegasse até nós pela escolha feita. O que fazer? Ignorar meu sonho? Abrir-me para outra possibilidade?Simplesmente não conseguia resolver isso dentro de mim.

Precisei da sensibilidade, da experiência e habilidade da Regina para me acalmar o coração.

Com sua voz calma, ela me disse: se a vocês pais adotantes é dada a oportunidade da escolha, da realização de um sonho, por que não realizá-lo? Que mal há nisso? Sejam absolutamente honestos com o seu desejo, e, sobretudo, não se preocupem em fazer bonito para mim ou para quem quer que seja, nosso objetivo no Fórum é que a adoção dê certo. Que a criança e vocês sejam felizes.

Pois foi assim que saímos de lá, felizes, tendo encomendado nosso bebê. E este estado de espírito foi importante para enfrentar a espera que viria.

Pelo perfil, menina, bebê de meses, sem irmãos com os quais ela convivesse (não admitíamos a ideia de separar irmãos) nossa espera seria mais longa.

Que fosse. Nossa filha já devia estar sabendo que era esperada!

Leia também: Adoção: Capítulo I – Fazendo as malas

Sobre o autor

Lívia Guimarães

Proprietária da Ponto Luz, Consultoria de Marketing.

Escreve no seu blog maletaamarela.com.br, por puro prazer, textos sobre o cotidiano através de um olhar sincero e divertido.

Blog: maletaamarela.com.br

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