Colunistas Crônica Thomas Hahn

Agora posso revelar

Escrito por Thomas Hahn

Vocês vão saber tudo sobre uma conspiração política em Brasília que correu solta, obteve sucesso total, e sobre qual você jamais leu uma linha sequer, seja nos jornais ou nos celulares. Nenhum jornalista conseguiu dar este furo na TV ou na rádio. Foi tudo tão bem feito, que ninguém ficou sabendo – ninguém, isto é, menos eu, e por um motivo bem simples: fui a vítima.

Começou há décadas. Para ser preciso, desde o dia que comecei a votar. Nunca me incomodei com o fato de ser obrigado a votar. Muito pelo contrário, sempre senti que era um privilégio, e um prazer. Onde mais encontrar amigos de longa data, olhar um para o outro e pensar “uai, este continua vivo?”, dar um abraço, trocar uma prosa (sobre os eternamente ausentes), e ir para casa com o sentimento de dever cívico cumprido?

Aos poucos, porém, foi se desenhando um padrão. Quem recebia meu voto não era eleito. Jamais. Receber meu voto era receber o carimbo de loser, coisa que ninguém quer ser na vida, especialmente na política. Passei despercebido por muito tempo, escondido no anonimato da cabine, até que, há pouco tempo, os matemáticos começaram a jogar algoritmos nas pessoas. O cerco virtual foi se apertando, e, belo dia, me vi nu e exposto: este é o cara que acerta (ou melhor, erra) todas. Fiquei famoso, embora num círculo restrito.

Como, em 2018, as eleições serão meio complicadas, e cada voto será crucial, foi decidido: não deixem esse cara votar. Voto dele é beijo da morte. Tem que dar um jeito de estancar esta sangria. E, com o prestígio e habilidade que lhes são peculiares, encontraram o mapa da mina sem terem que recorrer a uma PEC ou MP. Simplesmente convenceram as autoridades eleitorais a obrigarem os eleitores a se identificarem através da impressão digital.

Apesar da minha avançada idade, ainda sou capaz de causar uma boa impressão – só que não a digital. Aqueles desenhos delicados e individuais que temos nos dedos foram gastos por anos de contagem de notas e jogos de truco. Olhando com uma lupa, ainda consigo ver, aqui e ali, vestígios do que já foi uma obra de arte. E sinto uma saudade daqueles bons tempos em que minha digital era forte e robusta. Agora, nem para votar serve.

Paciência. É parte do pacote da melhor idade.

Sobre o autor

Thomas Hahn

Filósofo de botequim, autor consagrado (por ele mesmo) de um livro, colaborador, com muita honra, desde o primeiro número do Jornal d'aqui e morador da Granja Viana desde 1973.

Blog: www.avistadobanco.wordpress.com

Deixe um comentário