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Alter do Chão

Escrito por Beto Dixo
Além das praias da vila, de areia clara e águas doces e transparentes, há passeios imperdíveis.

Ouvi esse nome pela primeira vez há mais de 15 anos. Um amigo mostrou-me algumas fotos, encantei-me com a beleza do lugar e a sonoridade de seu nome, fui pesquisar. Tratava-se de uma vila praiana do rio Tapajós, 30 km distante da cidade de Santarém, no Pará. O nome Alter do Chão tem origem portuguesa, coisa comum naquele Estado: Belém, por exemplo, é uma freguesia na parte ocidental de Lisboa, Santarém uma cidade no vale do Tejo. A Alter portuguesa, vila situada no Alto Além Tejo, tem origem romana, foi fundada em 204 DC com o nome de Elteri. Já sua homônima paraense data do século XVII, foi fundada, claro, por um portuga, no local onde havia uma aldeia indígena dos Borari e depois estabeleceu-se uma missão jesuítica.

Fui conhecê-la naquele mesmo ano e fiquei fascinado, não apenas pela beleza paradisíaca do local, mas também pela forma como a comunidade se preocupava com a preservação da natureza e lidava com o turismo, que começava a surgir por lá.

alter_do_chao3Fiquei hospedado em uma das poucas pousadas que havia na época, com acomodações muito simples, mas onde se desfrutava de uma vista incomparável e da hospitalidade, bom humor e talento culinário da Socorro, a proprietária.

Grandalhona, falante e sempre ocupada, Socorro fazia parte do grupo de senhoras da vila que, convocadas pelos órgãos ambientais, ocupavam-se do resgate das orquídeas que tombavam quando as grandes chuvas derrubavam árvores na mata. Foi ela quem me contou também como os moradores de Alter haviam se posicionado contra a passagem de um rally pela vila, impedindo a entrada dos veículos. Em outra ocasião pediu-me ajuda para explicar para um casal de jovens alemães, clientes do restaurante, que estavam pedindo comida demais, as porções eram

Ilha do Amor

Ilha do Amor

enormes. Os gringos estranharam, acharam curioso que a informação partisse da dona do estabelecimento.

O Tapajós é o único rio da região que tem águas cristalinas e muitas praias. A mais bonita da vila, a Ilha do Amor, ficava em frente à pousada e justificava sua fama de Caribe Amazônico. Em novembro, quando as águas começavam a baixar, já era possível chegar caminhando até a faixa de areia branca onde árvores nativas e quiosques davam proteção contra o sol forte. Nos dias de semana, fora da temporada e com poucos turistas, os donos dos quiosques se organizavam para evitar a concorrência predatória, estabelecendo um rodízio onde só dois funcionavam por dia, com a obrigação de manter limpa toda a faixa de areia. Difícil de acreditar…

De lá para cá a fama de Alter se espalhou, turistas de todo o país e mesmo do estrangeiro passaram a frequentá-lo. O Guardian de Londres chegou a apontar o lugar como um dos mais lindos do mundo com praias de águas doces.

Voltei em 2013 temeroso do que iria encontrar, remember Porto Seguro no sul da Bahia, citado até hoje como um case de exploração desastrosa do turismo. Mas isso não ocorreu em Alter, protegido que está pela distância dos grandes centros, que geram fluxo incontrolável de visitantes para paraísos naturais, que não tem como absorvê-lo.

 Lago Verde

Lago Verde

Alguma coisa, é claro, mudou: a pousada da Socorro não existe mais, os novos hotéis são feiosos, construídos sem qualquer preocupação com projeto e materiais utilizados, há bem mais turistas circulando pelas ruas e praias da vila. Em compensação há mais opções de restaurantes, alguns com cardápios bem elaborados e a loja de produtos indígenas do Marcelo, o Araribá, que já existia na época, é hoje a mais bonita e completa no gênero que conheço no Brasil, reunindo peças de 80 etnias entre cestaria, cerâmica, máscaras rituais e instrumentos musicais.

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Igarapé dos macacos

No quesito natureza, além das praias da vila, de areia clara e águas doces e transparentes, há passeios imperdíveis a serem feitos de carro ou barco, que podem ser facilmente contratados nas agências locais: o Lago Verde ou Mata Encantada, a Floresta Nacional do Tapajós (Flona), o município de Belterra, núcleo urbano em estilo norte-americano, construído por Henry Ford na década de 30.

Voltei num voo de Santarém que partia ao amanhecer, escolhi um assento do lado da janela e contemplei do alto, maravilhado, o espetáculo do nascer do sol e o encontro dos majestosos rios Amazonas e Tapajós bem em frente da cidade, antes de começarmos a sobrevoar a imensidão verde da floresta.

Aproximando-nos de Congonhas, algumas horas mais tarde, não pude evitar a melancólica comparação com os nossos Pinheiros e Tietê, dois filetes de águas escuras, movendo-se lentamente na imensidão cinzenta da metrópole.

Sobre o autor

Beto Dixo

Consultor aposentado, viajante ainda na ativa, apaixonado por literatura e cinema, curioso por coisas e pessoas.

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