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Alunos do Colégio Sidarta viajam para região afetada pela lama

Escrito por Redação

Desde que a lama de rejeitos da Samarco atingiu o Rio Doce e o mar, os moradores de Regência, distrito de Linhares (ES) com apenas 1,2 mil habitantes, perderam o único lazer que tinham. Acostumadas a tomar banho de rio e pegar onda no mar, há um ano as crianças procuram uma nova forma de diversão. Pensando nisso, um grupo de estudantes do colégio Sidarta, em Cotia, viajou ao município para construir parques e revitalizar a biblioteca e uma creche.

Em cinco dias, 50 estudantes do 9º ano do ensino fundamental e 1º ano do ensino médio, que fazem parte do projeto Andoriar, entregaram à cidade os espaços de lazer. Claudia Siqueira, diretora do Sidarta, disse que a intenção do trabalho voluntário foi proporcionar uma troca de experiências e conhecimentos entre os alunos e os moradores. “Acreditamos que o aprendizado não acontece só na escola, mas com o contato com as pessoas. Não adianta ter o melhor ensino em sala de aula, mas não formar pessoas que queiram entender melhor a sociedade”, disse.

Com os moradores de Regência, os alunos pintaram e criaram uma sessão infanto-juvenil na biblioteca comunitária, construíram dois parques de bambu, um parque sensorial para a creche – que também foi pintada -, uma composteira e um site para divulgar artistas e artesãos locais.

Para as mudanças na creche, que atende 66 crianças de 0 a 6 anos, contaram com a ajuda de pais de alunos e adolescentes da cidade. A unidade não era reformada desde 2012 e não tinha parquinho ou brinquedo. Para este ano, a creche recebeu apenas R$ 3,5 mil de verba para o custeio e manutenção, o que inviabiliza a aquisição de qualquer brinquedo. Em nota, a prefeitura disse que o espaço de lazer na escola não foi construído por conta das “sucessivas quedas na arrecadação municipal dos últimos anos” e que o recurso para a instalação do parquinho está previsto para o próximo ano.

“É uma sensação de impotência muito grande, porque você quer resolver os problemas e melhorar a situação para as crianças, mas não encontra alternativa. Nossos alunos sofreram muito com o acidente. Além de não ter onde brincar na cidade, ainda vivem em famílias que estão passando por dificuldade por não conseguirem trabalhar”, disse Sandra Santos, de 44 anos, diretora da creche. Muitos dos alunos são filhos de pescadores, que estão impedidos de praticar a atividade por causa dos rejeitos.

Sandra contou que, desde o acidente, os professores sentiram as crianças mais agressivas e ansiosas. Também houve, segundo ela, uma evasão grande – no início do ano letivo eram 90 matriculados – e aumento de faltas. “Como os pais não podem trabalhar e não conseguem outro emprego, eles ficam com as crianças em casa ao invés de mandá-las para a escola. Fechamos duas turmas este ano. Isso é ruim para o aprendizado das crianças”, disse.

Os alunos do Sidarta repintaram toda a creche e fizeram um parque sensorial, com pneus, bambu e materiais reciclados. “Esse espaço trabalha com a visão espacial e elementos não convencionais. A significação de cada objeto do parque é o que cada aluno imagina naquele momento. Nossa intenção é ampliar o repertório dessas crianças”, disse Tuca Iralah, arte educadora que coordenou o parque.

Miriam Nascimento, de 33 anos, tem dois filhos – de 1 e 4 anos – que estudam na creche. Ela limpava e vendia os peixes que o marido pescava, por isso, os dois estão há um ano sem emprego e recebem o cartão de auxílio financeiro da Samarco. “Antes do acidente, nunca tinha pensado que o rio e o mar fariam tanta falta. Eu cresci com eles sempre disponíveis para mim, gostaria que meus filhos também tivessem isso. Agora, a gente não tem nem um lugar para levar as crianças para brincar.”

Voluntariado. O projeto Andoriar é uma proposta do colégio Sidarta para que os alunos de 9º ano experimentem o “volunturismo” – turismo e trabalho voluntário – no lugar de uma viagem de formatura em um resort. No ano passado, os alunos foram para Florianópolis e, neste ano, por causa do acidente em Mariana, decidiram ajudar Regência.

“Os moradores de Regência foram os últimos atingidos pela lama, o impacto ainda é muito grande pra eles. Nós abordamos o acidente em várias aulas, mas, em uma semana vivenciando realmente a situação da vila, os alunos aprenderam muito mais”, disse Camila Niemeyer, orientadora educacional do colégio.

O envolvimento dos alunos começou muito antes da viagem. Durante todo o ano, eles ajudaram a captar recursos para viabilizar os projetos. Eles também organizaram uma campanha de doação de livros. “Os alunos conheceram uma realidade muito diferente da que eles vivem e conseguiram compreender uma nova face da sociedade”, disse Camila.

Bruno Roberto da Silva, de 15 anos, aluno do 1º ano do Sidarta, disse esperar que o trabalho da escola tenha levado aos moradores de Regência a sensação de que as pessoas se importam com eles. “Conheci pessoas batalhadoras aqui, que lutavam por uma vida melhor quando uma tragédia atrapalhou seus sonhos. Espero que eles possam voltar a ter esperança e saber que podem contar com ajuda”.

Por Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo

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