Colunistas Deborah Brum Literatura

Ana Cecília Porto Silva

Escrito por Deborah Brum

“Para ser feliz, não é preciso muito
Basta a alma flutuar
Por ventos que compreendam
O que a vida quer ensinar
Quero sorrir sem motivo
Sorrir só para brincar
Tornar a vida mais leve
Mais leve quero ficar.”
De Ana Cecília Porto Silva

Fazia frio quando fui entrevistar Ana Cecília num café da região. Eu, fumante desde os dezesseis anos, sentei-me à mesa de canto tentando proteger-me do vento de fora que, através da porta aberta, fazia com que eu me encolhesse cada vez mais, pensando em como poderia parar de fumar, porque já era hora e o medo de doença, ainda hoje, amedronta-me.

̶  Café curto, por favor. – pedi à atendente.

Eu anoto algumas perguntas para fazer à Ana, mesmo sabendo que quando entrevisto alguém as anotações perdem-se na minha bagunça porque não me servem: ao escrever, acesso as imagens, as lembranças que vivenciei no corpo e que sendo verdadeiras também são falsas – a lembrança é sempre uma construção daquilo que experimentamos, mas que jamais consegue ser reproduzido novamente. Assim, qualquer relato da lembrança de uma experiência é, ao mesmo tempo, tão real como inventado.

Além disso, as lembranças que eu tenho do nosso encontro não são as mesmas de Ana – e tampouco da atendente que, provavelmente, nem tem lembranças do café que me serviu naquela manhã fria. Então, por que eu anoto? Provavelmente, porque de posse de uma caneta nas mãos, sinto-me mais segura e menos tímida.

Neste instante, por exemplo, enquanto fumo um cigarro de palha, enganando-me de que este faz menos mal, penso onde estarão as anotações?

A atendente serve-me o café junto a um brigadeiro pequeno, sobre o pires quente, e um copinho de água com gás. Perfeito, penso. Chega uma mensagem de Ana no meu celular: ela se atrasará, pois imprevistos acontecem, um acidente na Raposo Tavares trava o trânsito da região. Respondo que não tem problema, já estou aqui, que fique tranquila.

Acabara a FLIP, e eu, inconformada por não ter ido justamente no ano em que a homenageada era Ana Cristina Cesar, imaginava quem seria o próximo (a), do ano de 2017. Hoje eu sei que o homenageado será Lima Barreto.

Nina A borboleta que não sabia voarTomo o café e saio para fumar – apesar do frio e do pensamento em parar. Dou três longas tragadas, olho os livros na vitrine da livraria que fica no mesmo local, Ana Cristina Cesar ganha destaque, e eu imagino se um dia irei à FLIP. Apago o cigarro antes que chegue na metade e entro novamente na cafeteria. E antes que eu perdesse o foco nos meus devaneios, na solidão que não gosto de sentir quando estou sentada numa mesa sozinha, mesmo em casa, pego o livro infantil de Ana Cecília, “ Nina: A borboleta que tinha medo de voar e O Menino do Dente Mole – Duas histórias de superação”.

Mais tarde, quando Ana chega, eu a ouço lendo essa história com voz de flauta doce e viro uma criança que não entende nada de cigarros, FLIP e que não sente mais frio.

O livro contém duas histórias. Ambas possuem o mesmo tema: o medo. Com uma linguagem simples, a autora emprega uma voz narrativa muito próxima à oralidade da criança. Isso talvez se justifique pelo fato de Ana Cecília ser professora e contadora de histórias, além de escritora.

Sua infância também foi marcada por histórias contadas em volta da fogueira, no sítio da família, em Ibiúna, experiências marcantes que viraram um livro de memórias – “Lembranças de uma infância feliz”, assunto para uma próxima matéria.

Na primeira história do livro infantil de Ana Cecília, a personagem, Nina, é uma borboleta que tem medo de voar. Ridicularizada pelas outras borboletas e outros animais, Nina sente-se solitária e diferente. Pede ajuda ao vagalume e, mesmo assim, não consegue voar. Um dia, pensativa, escuta uma voz vinda do céu: é Cintila, a estrela cintilante. Tornam-se grandes amigas. Nina, no entanto, sem conseguir voar, precisa salvar o brilho de sua amiga, Cintila. É neste contexto, de amor e amizade, que a borboleta supera o seu medo.

Na segunda história, embora a temática seja a mesma, a autora traz o cotidiano numa cena familiar, ou seja, recorre pouco às metáforas, conseguindo uma narrativa mais divertida e menos lírica. Guga, personagem principal, é um menino que descobre que seu dente está mole. Porém, quando chega em casa, ansioso para contar à mãe a novidade, é surpreendido ao vê-la em pânico pela presença de um morcego em casa. Nesta história, com mais personagens do que na primeira, o final nos surpreende.

Agora, ao escrever esta matéria, estou de volta à cafeteria, à chegada de Ana Cecília que, mesmo atrasada por conta do trânsito, chega com um sorriso no rosto e traz para mim um livro que comprou na FLIP. Diz que tenho que ir, que irei adorar! Eu lhe dou um abraço, pego o presente: um livro que fala sobre as favelas do Rio, escrito por um estrangeiro. Penso: “Que engraçado! Um estrangeiro?”

Conversamos sobre esse livro, sobre sua ida à FLIP, sobre escritas, novos projetos, família. Ela já é avó, eu não acredito. “Jovem assim?”
Jovem assim. Porque Ana Cecília carrega consigo a esperança de criança que brinca na terra e de bolinha de gude, que solta pipa, que sabe voar.

Para finalizar, preciso agradecer à Ana sua presença no Projeto Granja Literária, evento realizado em parceria com a Nobel, em 2016.

E, finalmente, espero ter a coragem de Nina e Guga para superar o meu vício, não ter mais medo de frio, ir este ano à FLIP, ser livre e voar!

Que todos tenham um excelente 2017 e até a próxima matéria.

Ana Cecília Porto Silva foto 2Biografia:
Nascida em São Paulo em 18 de julho de 1959, reside em Ibiúna. Ana Cecília Porto Silva é professora de Ensino Fundamental, contadora de histórias, escritora e comerciante. Tem especializações em Gestão Educacional, Psicopedagogia Institucional e Docência do Ensino Superior.
Para entrar em contato com a autora, basta acessar o grupo no facebook: Ana Cecilia Histórias e Poesias.
Todos os livros da autora podem ser encontrados na Livraria Nobel da Granja Viana.

Sobre o autor

Deborah Brum

Artista Plástica com pós graduação em Arte Integrativa.
Atuou na área de Arte Educação Bienal. Hoje dedica-se às suas grandes paixões: filhos e a literatura. Ministra oficinas infantis e juvenis e é mediadora do Clube do Livro da Granja Viana.

1 Comentário

  • Parabéns a Débora e Ana Cecilia por acreditar que a gente pode, sím, pode com a literatura fazer um mundo melhor.
    Muitas obras novas e a alegria da perplexidade frente a uma trama literária emocionante.
    Um abraço,
    Mónica Palacios

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