Colunistas Deborah Brum Literatura

Assim foi….

Escrito por Deborah Brum

Hoje, dando aulas para escritores iniciantes, vejo que é importante eu contar um pouco da minha história com a escrita.

Acredito que o compartilhamento de conhecimento é um ato valioso na vida.

Durante meu percurso, conheci gente de todo tipo. Algumas, porém, por insegurança, não falam das dificuldades, dos seus fracassos, das angústias. Fingem, mentem e desmerecem o esforço, pois afirmam que nada existe além de talento e inspiração.

Mentira! Escrever é árduo, por vezes, cansativo quando você se vê perdida, sem achar a palavra exata, a voz narrativa precisa para seu narrador ou personagem. Temos que entender, finalmente, que literatura não é ter algo para escrever, somente.

Exige do autor o conhecimento das “técnicas”, o distanciamento do texto, quando necessário e, sobretudo, a humildade de reconhecer que aquele texto escrito por você nem sempre é literatura.

Eu espero, humildemente, que o meu depoimento incentive você, que gosta de escrever, a se aprofundar no seu caminho.

“Assim foi…”

Não tentei escrever um texto mais curto ou impessoal. Ao contrário, quando as mudanças são muitas, o corpo cresce porque tudo muda, e eu preciso de espaço: o olhar, a escuta, fala, postura, enfim, a vida que pulsa.

Quando cheguei ao Instituto Vera Cruz para o primeiro dia de aula, na pós-graduação de Formação de Escritores, eu tinha a certeza de que precisava escrever, mas, acima de tudo, buscar os alicerces necessários para que eu me reestruturasse na escrita. Faltava-me o conhecimento, uma espécie de estrutura que lhe dá voz, autonomia.

A escrita, sempre presente na minha vida, ora sendo salvação, ora desafio.

Explico.

Na época da alfabetização, apresentei dificuldades; além de ser muito dispersa, diziam os professores, os sons de algumas letras pareciam-me iguais ( d/t – g/c – p/g – s/z). E por não escutá-las direito, também não falava.

Com a escrita comprometida, envergonhada e apavorada quando era o Dia do Ditado, entendi que a escrita seria o meu desafio. E eu, que sonhava em ser Maria Bonita, não me conformei com o “probleminha” que tinha, ao contrário, lutei.

Através de associações mentais que eu fazia através de imagens e sons, escrever tornou-se um ato prazeroso num mundo criado por mim e para mim, sem limites.

Até hoje escrevo assim: a imagem vira texto.

Segui escrevendo nos cadernos de Matemática, nas paredes, nas portas dos armários, diários, guardanapos, cadernos.

Entrei em Letras, mas terminei Artes Plásticas.

Casei, segui escrevendo não só em cadernos, mas nas vidas de Pedro e Clara, meus filhos.

Fui professora, monitora, brincante, decoradora de festas infantis, confeiteira.

Parei.

“O que você quer ser quando envelhecer, Deborah?”

Cheguei até aqui. Sinceramente, não sei onde eu estarei amanhã, ou depois…

Mas este percurso não foi fácil. A aluna, que é a menina que trocava as letras, chegou neste curso sem conseguir falar.

Tentava, eu sei.

Estudava, lia, tentava entender, não entendia, tentava de novo.

Escrevia, limpava o texto, estudava, perdia, voltava.

Ela percebeu uma chance, e o professor sentiu que ela precisava disto: ele deixou a aluna falar sobre seu projeto literário, não por piedade, mas por vê-la aflita sem uma voz.

Ela agradece demais!

Ela estudou, desenhou, fez gráficos, cronologias numa folha de cartolina e apresentou o projeto.

Nesse dia, apresentou-se também.

Os amigos a ouviram com respeito e perguntavam muito para incentivá-la a falar.

Ela agradece aos amigos. Grandes amigos!

Chorou.

De volta ao lar, beijou o marido, contou-lhe a história.

Os dois vibraram.

Ela estava de volta com a voz que havia perdido.

Ela segue escrevendo.

Finalmente, depois de quase dois anos, está feliz com o projeto, pois sente prazer quando o escreve.

Aprendeu muito, criou segurança para escrever porque deram-lhe a estrutura proveniente do conhecimento.

Agora fala, escreve e agradece.

Meus sinceros agradecimentos aos professores que, com sabedoria, mudam uma vida, e aos amigos que terão que me aguentar pelo resto de suas vidas!

Assim foi…

Quase finalizando o meu percurso dentro do Instituto Vera Cruz, vejo o tanto que cresci pessoalmente e profissionalmente. Junto à Nobel da Granja Viana, montei o Clube do Livro da região e formamos um grupo maravilhoso de amigos, colegas que possuem a mesma paixão.

Recebi o convite do Jornal d’aqui, e tenho a alegria de ser colunista.

Dou aulas para escritores iniciantes, para jovens que buscam aprimorar sua escrita, mesmo que seja para o vestibular, mas descobrem o prazer da leitura, do conhecimento.

Ainda não publiquei o meu livro, apenas contos em antologias.

Não sei se terei a chance de publicar um livro, mas o mais importante eu tenho: a vontade de continuar.

Caso essa vontade seja sua também, informo que as inscrições para a pós-graduação do Instituto Vera Cruz estão abertas.
Detalhes nesse link.

Boa sorte e siga!
Em breve novidades sobre literatura, aqui, na Granja!

Sobre o autor

Deborah Brum

Artista Plástica com pós graduação em Arte Integrativa.
Atuou na área de Arte Educação Bienal. Hoje dedica-se às suas grandes paixões: filhos e a literatura. Ministra oficinas infantis e juvenis e é mediadora do Clube do Livro da Granja Viana.

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