Deborah Brum Literatura

Baleia

Escrito por Deborah Brum

É necessário que nos desenraizemos das raízes podres a fim de enxergar as coisas que não são normais. Enraizados no conceito de que as desigualdades são banais, cenas de mais um capítulo de nosso cotidiano e de nossa história, deixamos de perceber, calados e sem sustos, a desumanização do homem diante dos nossos olhos.

Domingo à tarde: famílias passeiam pela Avenida Paulista. Na coleira, um cachorro. Uma banda de jovens toca, e um casal dança. Perto do cinema, cheiro de pipoca. Qual a próxima sessão?

Do outro lado da rua, hoje fechada para angústias, a livraria. Cruzo a galeria e só vejo gente. Gente. Gente. Domingo é dia para ser feliz?.

Entro na livraria e tomo um café. Nas rampas, pessoas descem e sobem, mas ninguém vem me atender ou dizer, Boa tarde, senhora!.

Procuro um livro: “ Os cem melhores contos brasileiros do século”, organização de Italo Moriconi. Meu exemplar, comprei num sebo. Mas para dar de presente para uma amiga, penso que os contos bastam, pois a história por detrás do objeto, do livro, já seria exagero para ela.

Na página 95, o conto “ Baleia”, de Graciliano Ramos, que, posteriormente, será o trecho de sua célebre obra” Vidas Secas”. Releio o conto. Compro o livro e peço que embrulhe para presente.

De volta à avenida, vejo ele, um Homem, que revira o lixo de um restaurante; o resto da comida dessa gente que passeia, sem notar que um homem procura um osso. Não é um cão, eu sei. Num instante, me desenraizei e consegui enxergar um Homem.

O conto: Baleia
Na década de 30, segunda fase do modernismo brasileiro, surge o romance regionalista nordestino, caracterizado como uma literatura social. Graciliano Ramos aparece neste cenário como um dos fundadores desse novo estilo moderno regionalista.

No conto, uma família é nos apresentada dentro de um contexto de sofrimento. A família é composta pelo pai Fabiano, a mãe Sinhá Vitória, os filhos e a cachorra Baleia.

O narrador, em terceira pessoa, apresenta logo no primeiro parágrafo a situação degradante da cachorra Baleia. Doente e quase para morrer, Fabiano decide que deve sacrificar a cadela. Sinhá Vitória, mesmo aflita, concorda com a decisão do marido. Temerosos que Baleia esteja com hidrofobia, Fabiano busca a espingarda enquanto Sinhá Vitória fica com os filhos. As cenas são descritas através de um narrador que se aproxima de um dos personagens para revelar ao leitor o ponto de vista de cada um deles sobre o conflito.

Entretanto, é evidente que após o tiro dado por Fabiano, que fere Baleia, o narrador em terceira pessoa aproxima-se do ponto de vista de Baleia. Nesta aproximação, Baleia ganha sensações humanas que são descritas dentro de processos mentais de cognição. Os desejos de Baleia, suas aflições e medos são narrados de um ponto de vista próximo à cadela para que o leitor tenha a sensação da antroporfomização ainda mais intensa da cadela.

No final, quase morta, Baleia só quer dormir e acordar num mundo feliz cheio de preás.

Enquanto nós não nos desenraizarmos dos nossos sentimentos que não nos deixam enxergar a desumanização, um homem, que revira o lixo, será menos gente que Baleia.

Sobre o autor

Deborah Brum

Artista Plástica com pós graduação em Arte Integrativa.
Atuou na área de Arte Educação Bienal. Hoje dedica-se às suas grandes paixões: filhos e a literatura. Ministra oficinas infantis e juvenis e é mediadora do Clube do Livro da Granja Viana.

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