Colunistas Crônica Lívia Guimarães

Banzo

Banzo
Escrito por Lívia Guimarães

Nunca gostei de viajar a trabalho. Nisso acho que sempre fui diferente da maioria dos meus colegas. Ou pelo menos, não disfarçava.

Acontece que por força da minha profissão, volta e meia estava eu lá no aeroporto, embarcando para países distantes.

Lógico que por conta das constantes viagens conheci lugares incríveis que jamais teria condição de conhecer por conta própria, mas por algum mecanismo, não conseguia separar muito bem trabalho e lazer.

Além disso, sou sentimental, e quase sempre sentia saudades de casa, vontade de voltar pro meu canto, estar com a minha gente.

Isso não contava pra ninguém. Sabe como é, podia pegar mal para uma executiva, já que todo mundo à minha volta fazia questão de deixar claro que adorava uma reunião global. Arh!

Pois bem, um belo dia tive que ir à Chicago, em um momento complicado da minha vida pessoal, em que mais do que nunca queria estar aqui. Embarquei contrariada e assim fiquei a viagem toda, disfarçando a angústia da distância. Sabe como é, a ilusão de que estando perto as coisas do amor se resolvem melhor. Pura ilusão, diga-se de passagem.

Tamanho peso me trouxe junto uma gripe forte daquelas com tosse de peito cheio.
Finalmente chegou o dia da volta e assim que entrei no avião desabei na poltrona executiva. Decolagem, etc. e tal e lá vem o jantar.

Agora me falem, vocês já tiveram o desprazer de viajar com um homem inconveniente ao seu lado? Do tipo chato, grudento? Justo neste dia, eu tive.

O cara, um americano, não me dava sossego. Inclinava em cima de mim pra falar, fazia perguntas demais e insistia para que eu provasse o seu jantar. Sem noção.

Nesse momento lembrei das aulas de história do colégio. E sobre como me impressionou a história do Banzo. A saudade imensa de casa que os pobres escravos africanos sentiam e que os levava a morrerem do que hoje se chama depressão. Mais do que nunca eu sentia um banzo do Brasil, uma vontade de abrir a porta do meu apartamento, de sentir o perfume da minha casa.

Ao mesmo tempo uma ideia genial me ocorreu.

Comecei a tossir fortemente em cima do americano, na direção do seu prato, me inclinando sobre ele, falando na direção do seu rosto, pedindo ajuda, e dizendo:
– Sorry, I have an African desease. It´s Banzo.

O cara entrou em desespero, se afastava como podia de mim, mas eu continuava tossindo e tossindo. Tentou mudar de lugar, sem sucesso. E passou o resto da viagem encolhido na poltrona, logicamente sem jantar.

Cheguei feliz da vida em São Paulo, dei um tchauzinho animado pra ele e desejei boa estadia.

Lar, doce lar.

Sobre o autor

Lívia Guimarães

Proprietária da Ponto Luz, Consultoria de Marketing.

Escreve no seu blog maletaamarela.com.br, por puro prazer, textos sobre o cotidiano através de um olhar sincero e divertido.

Blog: maletaamarela.com.br

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