Colunistas Crônica Lívia Guimarães

Buraco na Camisa

Escrito por Lívia Guimarães

Em uma época lá atrás, estive desempregada.

Se houver condições financeiras e o mínimo de bom humor, você passa pela coisa ilesa. E ainda ganha um certo despojamento e a capacidade de entender o quanto relativo pode ser um cargo. Quando volta à ativa já não é mais a mesma pessoa e passa até a dar risada das neuroses corporativas.

O fato é que eu estava feliz. Bem feliz.

Ter uma nova rotina depois de tantos anos, poder fazer aulas aqui e ali do que me desse na telha, tomar café da tarde fora da firma, encontrar amigas, era o paraíso para quem deu duro desde cedo.

Mas o dia que eu tanto evitava chegou com um telefonema para uma entrevista. Uma coisa era não procurar, outra era descartar trabalho. Meu senso de responsabilidade e o extrato bancário não permitiam.

Lá fui eu desanimada, mas fazendo aquele esforço para vender entusiasmo. A empresa era um império, líder mundial de produtos de luxo, perfumes, bebidas e otras cositas más.

O processo se revelou insano. Intermináveis entrevistas com a consultoria de recrutamento, a Diretora de RH, o pessoal de marketing (ah! Eles queriam que o grupo também gostasse do candidato), o Diretor Comercial e por aí vai.

A cada entrevista ia sendo aprovada e ficando mais deprimida com a possibilidade de trabalhar lá.

Explico. O escritório era em uma mansão dos Jardins, tipo castelo da Frozen, de tão fria. Desde o manobrista, passando pela moça do café, até chegar no pessoal mais graduado, todos empinavam aquele olhar de superioridade, típico de ambientes infelizes. Toda vez que saía de lá, e não foram poucas, voltava conversando animadamente com o taxista, aliviada por estar de novo com gente de carne e osso.

Quando achava que a coisa tinha emperrado e comemorava dizendo para mim mesma: “tá vendo, eu fiz de tudo”, fui convidada a fazer um teste psicotécnico de um dia inteiro. A empresa exigia isso.

Lá fui eu desenhar casinhas (com piso sempre!), interpretar manchas no papel…. e, de novo, fui escolhida.

A situação ao meu ver estava ficando desesperadora. Ia ser contratada!

Faltava somente uma entrevista, com o Diretor Intergaláctico, Comandante Mor do Império do Gelo. E, no dia, me resignei e fui.

A entrevista corria muito bem, o cara tinha gostado de mim, eu ia performando, até que a coisa aconteceu. O desastre. O meu fim.

Nossos olhares se cruzaram em câmera lenta naquele ponto, na lateral da cadeira.

Eu, gelada, ele, profundamente desgostoso. Ambos olhando para um descosturado nada pequeno na minha camisa, que eu juro, não tinha percebido quando escolhi cuidadosamente a roupa.

Ficou claro que a conversa com o francês (sim, ele era um francês, muito, mas muito chique) acabaria ali.

Foram poucos minutos até a derrocada final. Imagine se um erro desses seria perdoado. Saí arrasada. Sou sempre tão cuidadosa com a aparência! Mas ao atravessar a imensa porta de vidro da mansão eu vibrava de felicidade.

Meses depois, comecei a trabalhar na empresa mais bacana do mundo, em que fui muito feliz, e que era também muito elegante, mas por dentro e por fora. Ah! O nome dela? Firmenich. Recomendo.

Sobre o autor

Lívia Guimarães

Proprietária da Ponto Luz, Consultoria de Marketing.

Escreve no seu blog maletaamarela.com.br, por puro prazer, textos sobre o cotidiano através de um olhar sincero e divertido.

Blog: maletaamarela.com.br

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