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Carnaval pra quem? Carnaval pra mim!

Escrito por Gabriel Corrêa

Do latim, “carnem levare” significa “abster-se da carne” ou “afastar-se da carne”, expressão divulgada pela igreja católica referindo-se à quaresma, período quando as pessoas deveriam ficar sem comer carne. O carnaval antecede a quaresma, ou seja, são os dias de despedida da carne.

Outra hipótese é que o carnaval tenha origem na antiguidade quando diversos povos comemoravam os solstícios e equinócios. Prefiro ficar com essa versão mais antiga vinda das festas pagãs que revivem Dionísio.

Entendo o carnaval como um momento cultural que promove a interação entre classes sociais e os povos no mundo inteiro. Mesmo com o domínio conceitual da igreja cristã, a festa é comemorada até hoje em vários lugares do mundo: Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha, Veneza, Suíça, Colômbia, Peru, Japão, Canadá, Bolívia entre outros. Um sentimento de liberdade que deveria ser para todos sempre.

No Brasil o carnaval foi trazido pelos portugueses no período colonial através do Entrudo, festa de origem portuguesa em que os escravos aproveitavam para poder se expressar, muitas vezes de maneira violenta. Os nobres e os mais ricos limitavam-se a assistir e mais tarde se organizavam em salões e teatros para poder comemorar à sua maneira, sem se misturar com o povo. Mais tarde os mais ricos tentaram ganhar as ruas através dos “corsos”, um desfile que era feito pela elite em cima de carros, mas não tiveram sucesso. As camadas populares adaptaram o entrudo para o modelo de rancho e cordões. Num primeiro momento tinham uma estética de procissão que vinha da área rural para o centro e traziam elementos da cultura negra como a música e a dança. É a partir daí que se desenvolve os desfiles e a escolas de samba como conhecemos hoje.

Vivemos em uma sociedade que precisa de mais momentos humanos como o carnaval. Ao mesmo tempo, o carnaval atual nos mostra como estamos desumanos. Temos os abadás, que nos separa, a exploração criminosa da imagem do corpo da mulher e também a capitalização das escolas de samba; também vemos a miscigenação cultural e social ocorrendo nos blocos de rua.

Pensando nessas questões quero pedir licença a todos os leitores para promover uma ação de carnaval muito bacana.

Saracura Carnaval 2Percebendo a identificação das pessoas com o carnaval, o Grupo Saracura, se propôs a levar a cultura carnavalesca para um local que antes, talvez fosse inimaginável. Após 10 anos trabalhando com humanização hospitalar através da música, o grupo resolveu ser mais ousado, promovendo uma ação de carnaval dentro dos hospitais em São Paulo.

O dia a dia das visitas musicais do Saracura normalmente ocorrem em duplas de músicos num ambiente íntimo, dentro dos leitos de internação dos hospitais e até mesmo nas unidades de tratamento intensivo (UTI).

Mas dessa vez organizaram uma formação diferente: junto com os cantores e os violões, que atuam normalmente, os duetos serão acompanhados por 3 flautas transversais. Essa formação foi adequada para poder atuar nos hospitais e poder levar as marchinhas até os pacientes internados. Eles vão atuar em 8 hospitais de São Paulo. O repertório tocado será composto por cantigas infantis, como o “Sapo Cururu”, arranjadas no ritmo de marchinha, junto, lógico, com as tradicionais marchinhas de carnaval como “Mamãe Eu Quero” e “Abre Alas”, por exemplo.

O objetivo? Levar a música, a cultura e a energia da festa de carnaval para o ambiente hospitalar e assim propiciar uma experiência de prazer em um momento tão delicado vivido pelas pessoas que estão internadas. Refletindo sobre esta ação, queria polemizar: humanizar… Será que estamos desumanizados? Ou será que ainda não atingimos o estado de ser humanos que gostaríamos.

Ações como a do Grupo Saracura me fazem entender como é importante entendermos o carnaval como algo para todos. Ele deve nos levar para os primórdios da humanidade, para um sentimento de liberdade que nos transforma, nos entrega de corpo e alma para a possibilidade de sermos livres da carne por alguns dias. Livres, sendo só espírito. O que não podemos é encarnar o espírito de porco. Coitado do porco.

Devemos sim desencarnar e nos doar para o mundo, doar promovendo a alegria e, assim, nos tornarmos mais humanos.
Às vezes acho que poderíamos ter carnaval o ano inteiro, todo o fim de semana, talvez. Pelo menos ter a condição humana de poder vivê-lo internamente todos os dias.

Sobre o autor

Gabriel Corrêa

Gabriel Ribeiro Corrêa, músico. Foi violonista, vocalista, compositor e arranjador do Grupo Olaria. Atualmente, leciona música no Colégio Ofélia Fonseca. É sócio fundador, violonista e cantador do Grupo Saracura, um coletivo de músicos que desenvolve práticas musicais em hospitais.

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