Colunistas Crônica Lívia Guimarães

Como comprar um apartamento nas lojas Marisa

marisa
Escrito por Lívia Guimarães
Uma sincera homenagem ao meu amigo Elliot

1997. 27 anos de idade. Morando com pai e mãe, muito a fim de ter meu canto, mas nada planejada para o que significava aquilo.

Já trabalhava como gerente de uma multi, ganhava muito bem. Poupava quase nada. Sabe como é, aquela história de demanda reprimida, anos a anos de classe média apertada, filha de professores. Querendo de um tudo, podendo muito pouco. De repente a grana começa a entrar, vem o carro zero, roupas bacanas, restaurante dos Jardins, viagem pra fora, ajudas pra família, e por aí vai. Ou melhor, foi, o meu dinheiro.

Na prática tinha uma pequena poupança.

Visitei apartamentos para alugar na Vila Madalena. Na época, um bairro bem viável financeiramente. Depois de alguns carpetes gastos, cozinha de pisos encardidos, prédios com entradas lúgubres, cheguei à conclusão de que deveria tentar um imóvel em construção. Esperaria alguns meses, sem problemas.

É aí que o Elliot aparece na história. Um sujeito que se casou com a minha melhor amiga, anos antes. Casaram-se e, por herança, ele entrou na minha vida. E ficou.

O Elliot é daqueles amigos com senso de humor típico dos resmungões, bem reclamão, com enorme coração, inteligência ímpar e tremendo bom gosto. Pronto, a receita certa para se tornar querido por muitos.

Logo de cara deu liga, carinho recíproco de irmão mais velho e irmã caçula.

Bem, voltando ao apartamento. Era um domingo ensolarado de maio. Acordei disposta a comprar o jornal e procurar imóveis. Liguei pra contar a novidade pro Elliot. Eram 10 horas.

Às 10h30 já tinha localizado um prédio na Rua Fidalga. Iria até lá.

Às 11h30 estava apaixonada pelo apartamento, com a firme crença de que seria feliz ali.

Às 12h liguei de volta pro Elliot avisando que havia dado o cheque do sinal e assumido prestações.

Proibida de fazer qualquer coisa, de voltar a falar com o corretor até o casal chegar, o Elliot gritava ao telefone:

– Lívia, não se compra um apartamento como se compra calcinhas nas lojas Marisa! O que foi que você assinou? Não assina mais nada! Tô chegando.

Lá pelas 12h30 chega o casal Elliot e Serena, visivelmente descabelados.

Enquanto ele vai checar as condições de entrada, ameaçar desfazer o negócio precipitado, Serena e eu olhávamos a vista e já planejávamos a decoração, cor das paredes, primeiro brinde, em êxtase!

E assim foi, em todo o processo da negociação, estava lá o Elliot comigo. Brigando com a construtora, ameaçando desistir da compra.

No meio de uma das discussões em que fui orientada a ficar calada e fazer cara de desinteresse, o Elliot dizia:

– Vocês sabem o calibre desta compradora? O cargo dela? O salário? Amigo, a construtora devia é dar um desconto, olha esse perfil! Parecia um pai brigando na escola.

E eu lá, adorando tudo aquilo.

Poucos meses depois me mudei pra Rua Fidalga, onde morei e fui feliz por muito anos.

Sobre o autor

Lívia Guimarães

Proprietária da Ponto Luz, Consultoria de Marketing.

Escreve no seu blog maletaamarela.com.br, por puro prazer, textos sobre o cotidiano através de um olhar sincero e divertido.

Blog: maletaamarela.com.br

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