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Cuba – e os americanos ainda nem chegaram

Escrito por Beto Dixo

“Bienvenidos a Cuba”. Era com essa expressão, cheia de ironia, seguida de uma curta preleção sobre as conquistas da revolução cubana, que a chefe da recepção reagia às reclamações dos hóspedes no balcão do hotel em Havana. E estes estavam cheios de razão: faltara água por mais de cinco horas, esgotaram-se novamente os cartões pagos para utilizar o Wi-Fi, não havia mais CUC (moeda local) para ser trocado por euro ou dólar, o único elevador funcionando, que era o de serviço, encontrava-se mais uma vez fuera de servicio.

Hotel Inglaterra

Hotel Inglaterra

E atenção que não se tratava de um hostel para mochileiros, mas do imponente Hotel Inglaterra, um quatro estrelas localizado no centro da capital, edifício ícone da cidade, inaugurado em 1875 e declarado Monumento Nacional. Já estiveram lá hospedados ninguém menos que Sarah Bernard, Ana Pavlova, Rubén Dario, entre outros.

Cuba Havana Casario

Havana, casario.

Sempre quis conhecer Cuba. Guardo ainda os primeiros livros de viagem sobre a ilha que foram publicados no Brasil, um do Frei Beto (1987) e outro do Ricardo Kotscho (1990), que hoje podem ser lidos como curiosidade. Adiei o projeto durante todos esses anos, mas o restabelecimento das relações diplomáticas com os EUA e o provável fim do embargo me levaram a marcar logo a viagem, vai que …

Fui com um grupo de amigos agora no final de 2015, para uma estadia de doze dias. Gostei muito e valeu a pena, vou logo dizendo, mas voltei, parodiando o samba do Chico, com a leve impressão de que já fui tarde..

Cuba Havana Mulher na varanda

Havana, mulher na varanda

O valente povo caribenho, que resistiu heroicamente à tentativa de invasão do país por exilados de Miami e mercenários treinados pela CIA, está tendo que aprender a lidar com as novas hordas que chegam agora: os ávidos e curiosos turistas estrangeiros, que desembarcam aos milhares nos aeroportos e portos do país em busca das emoções mais do que garantidas pelas beleza natural e riqueza cultural de Cuba e seduzidos por sua história singular.

Consequências óbvias: preços inflacionados, hotéis e companhias aéreas trabalhando com overbooking, bares e restaurantes sempre lotados, filas nas casas de câmbio, correio, telefônica, etc.

Consequência mais sutil e que mais me incomodou: o assédio constante do turista, gerando desconforto e prejudicando a espontaneidade no relacionamento com a população.

E os americanos ainda nem chegaram, como adverte Leonardo Padura em recente matéria publicada na Folha de São Paulo, cujo título “roubei” para esta coluna.

Em 1989 Kotscho entrevistou uma autoridade da corporação nacional de turismo, a Cubanacán, que se orgulhava de o país ter recebido naquele ano cerca de 200 mil turistas (especialmente turismo de congresso, de saúde e especializado em pesca e caça submarina) e que planejava multiplicar esse número por 10 num prazo relativamente curto. Padura diz que em 2014 chegou-se ao sonho dos 3 milhões e que começa agora o “pesadelo” (a expressão é dele) de 4 ou 5 milhões. Boa notícia para a economia, mas ao mesmo tempo tremenda dor de cabeça para o Estado, proprietário majoritário da totalidade dos hotéis do país e responsável por seu abastecimento.

A renovação da infraestrutura em todos os setores do trade turístico vai levar um bom tempo e até lá quem vai ter que pagar o mico é o pessoal que presta serviço ao visitante estrangeiro, como a mal humorada recepcionista do Hotel Inglaterra. Talvez ela nem saiba, mas está seguindo à risca a receita que o figurão da Cubanacán prescrevia para o desempenho de sua função, lá pelos idos de 80. Transcrevo:

Taxis americanos

Taxis americanos

“Claro que não devemos confundir serviço com servilismo”… ”Por isso é importante que dentro do setor (do turismo) todos tenham clara consciência do seu papel, não só do ponto de vista econômico, mas também político”… “Cada trabalhador, além dos conhecimentos técnicos específicos e do domínio de idiomas deve ser também um porta-voz da revolução”.

No planejamento da viagem, consultei guias e algumas pessoas que estiveram em Cuba recentemente, optando por conhecer Havana e outras três cidades da região central oeste do país, evitando o turismo “sol e praia”, tipo Varadero, Cayo Largo, Caio Coco, etc.

Nas próximas crônicas compartilho essa experiência com os leitores da coluna.

Sobre o autor

Beto Dixo

Consultor aposentado, viajante ainda na ativa, apaixonado por literatura e cinema, curioso por coisas e pessoas.

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