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Cuba – Havana

Escrito por Beto Dixo

A viagem de avião do Brasil para Cuba é cansativa, há escala e mudança de aeronave em Bogotá (ou Cidade do Panamá), com a inevitável espera no saguão do aeroporto. Para piorar, os voos partem de São Paulo de madrugada, em horários onde a precariedade dos serviços nos terminais antigos de Guarulhos fica mais evidente. Já o aeroporto de Bogotá surpreende: moderno, bonito, um duty free turbinado 24 horas, boas cafeterias. Lembre-se de desbloquear seu cartão de crédito para utilizar na Colômbia, antes de partir, para não ter que comprar moeda local. E aproveite essas quase três horas em trânsito para se despedir da rede de wi-fi aberta, você vai sentir saudades em Cuba…

havanacarros2O aeroporto de Havana, o José Marti, fica a 18 km do centro e no trajeto até a capital a paisagem já coloca o turista no clima: trânsito calmo, carrões americanos e soviéticos circulando lado a lado com moto-taxis e bicicletas, monumentos e cartazes revolucionários. Sempre enormes e algo desbotados, os outdoors mostram, invariavelmente, as figuras dos irmãos Castro, Che Guevara e, às vezes, o comandante Chaves, pegando carona. No mais famoso vê-se um punho cerrado, em cujo antebraço se lê a palavra EMBARGO ou BOICOTE, acertando em cheio o rosto de um fraco e envelhecido Tio Sam. Obama certamente vai reparar quando passar por lá…

habana_vieja_la_habana_cuba_7281_1200x800A cidade de Havana divide-se em três setores distintos: Havana Velha, Havana Centro e Vedado e todos merecem uma visita. A preferida dos turistas é a cidade velha, de longe o mais preservado conjunto de arquitetura colonial que já visitei, declarada “patrimônio cultural da humanidade” em 1982. Em nada lembra algumas congêneres, que são cidades museus, onde não vive mais ninguém e só há lojas, restaurantes e bares. É uma parte viva da cidade, judiada pela falta de recursos para manutenção, mas com uma quantidade enorme de edifícios de valor histórico e monumentos construídos entre os séculos XVI e XIX. São tantos, mas dá para destacar alguns: todo o entorno da Praça da Catedral, o Palacio de los Capitanes Generales, o casario da rua Obispo, onde está o Hotel Ambos Mundos, cheio de memórias literárias, onde Hemingway morou por longos períodos.

Dá para se visitar Havana Velha toda a pé. Durante o dia, as ruas se enchem de gente local e de turistas, a agitação é grande ao redor da Praça de Armas e ruas adjacentes, O´Rilley, Mercaderes, Empedrado, etc.; em algumas delas só circulam pedestres. À noite o movimento diminui, mas permanece a sensação de segurança para o pedestre, bem diferente de São Paulo.

CUBA. SANTIAGO DE CUBA. Un couple danse une rumba guaguanco ( un jeu d’attraction-répulsion entre un homme et une femme) a

Atualmente são muitos os bares e restaurantes nessa área, alguns com mesinhas nas ruas e calçadas e quase todos com música ao vivo, a qualquer hora do dia e da noite. Os grupos musicais podem ter formação variável, mas nunca vai faltar a bela morena vocalista e percussionista, sempre usando um figurino provocante. Os hits são Guantanamera, Yolanda e Chan-Chan, imortalizado na voz de Compay Segundo, do Buena Vista Social Club e verdadeira trilha sonora do pedaço, cujos primeiros versos não me saem até hoje da cabeça: “de Alto Cedro, voy para Marcaré / llego a Cueto, vou para Macari”…

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Passeio do Prado

Separando Havana Velha do centro fica o Parque Central, outro ponto de partida importante para conhecer a cidade. Nas imediações estão o Capitólio, o recém-restaurado Grande Teatro de Havana (agora Teatro Alicia Alonso) e o Passeio do Prado, o mais célebre boulevard da capital, que termina no Castelo de San Salvador, já a beira mar. Lá começa o Malecon, a via que acompanha a orla por oito quilômetros e que é tão presente na vida dos moradores da cidade como nos romances dos autores cubanos contemporâneos. Para os bons caminhantes é possível fazer o passeio a pé, do Castelo até o Hotel Nacional, este já no Vedado, a parte nova da cidade.

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Edifício Focsa, o mais alto do país, construído em 1956.

Antigo bairro residencial o Vedado é hoje um centro político e cultural, onde está a maioria dos edifícios públicos e hotéis da capital, restaurantes, lojas e teatros. Não há nada relevante na arquitetura e na história das construções, além dos casarões das antigas famílias importantes, da famosa (e caída) Sorveteria Copélia, do edifício Focsa, o mais alto do país, espécie de Copan cubano construído em 1956, e do lindo Hotel Nacional. Seus jardins, com vista para o mar, podem ser frequentados por não hóspedes e o mojito servido por lá foi o melhor que provei na viagem.

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Praça da Revolução

Também no Vedado está a célebre Praça da Revolução, de importância simbólica, palco das grandes manifestações de massa e celebrações de acontecimentos na história recente da ilha. Dominam o cenário o imponente Memorial José Marti e a fachada do Ministério do Interior, literalmente coberta por uma escultura em fio de cobre com a figura de Guevara, inspirada no célebre retrato do herói, imortalizado na foto de Alberto Korda. Em baixo da figura estão as palavras de ordem: Hasta la victoria, siempre.

Na próxima crônica, um passeio pelas cidades de Trinidad, Santa Clara e Cienfuegos, todas no centro oeste da ilha.

Sobre o autor

Beto Dixo

Consultor aposentado, viajante ainda na ativa, apaixonado por literatura e cinema, curioso por coisas e pessoas.

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