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Cuba – região centro oeste

Escrito por Beto Dixo

Ao turista que dispõe de poucos dias para conhecer o país e que não quer limitar a viagem apenas a Havana, coloca-se um problema: o que visitar? Afinal trata-se de um arquipélago formado por mais de mil ilhas (apenas a maior se espicha ao longo de 1.250 quilômetros), com mais de cinco mil quilômetros de costa e duas dezenas de praias.

Infográfico: g1.com.br

Infográfico: g1.com.br

Depois de conversar com algumas pessoas e de consultar guias de viagens, decidimo-nos por evitar os locais mais badalados e os destinos muito procurados por estrangeiros adeptos do turismo “sol e mar” e também não percorrer grandes distâncias. Limitamo-nos a viajar pela região centro oeste da Isla Grande, deslocando-nos, sempre por terra, entre as cidades de Trinidad, Santa Clara e Cienfuegos, de onde regressamos à Havana. Contratamos com uma agência de São Paulo os hotéis e os traslados, mas na verdade tudo passa pelas mãos de uma agência local e da onipresente Cubanacan, a estatal responsável final pelos serviços e por todos os problemas que tivemos.

Trinidad declarada Patrimônio da Humanidade em 1988.

Trinidad declarada Patrimônio da Humanidade em 1988.

Deixamos Havana em um dia chuvoso, rumo a Trinidad, distante 314 km da capital, em uma van confortável e com um motorista bem vestido, simpático e falante. E também louco para faturar um “por fora”: Jordan, nos primeiros quinze minutos das quase quatro horas de viagem, foi logo oferecendo visitas “extras” a um pântano de crocodilos (cinco euros por pessoa), a um viveiro de criação de flamingos rosa (quinze euros). Recusei e não resisti contar que, como mato-grossense que sou, estava habituado a ver jacarés, de graça, e mesmo a correr deles quando saía do carro para abrir a porteira das fazendas. E quanto a flamingos rosa já tínhamos visto bandos de dezenas deles voando livres sobre a Lagoa do Peixe (RS) alguns anos antes. Acho que não acreditou, mas não insistiu mais com as ofertas.

Escolares em Trinidad

Escolares em Trinidad

Trinidad fica na província de Sancti Spíritus, foi fundada em 1514 e declarada Patrimônio da Humanidade em 1988. Depois de ter sido importante centro de comércio de escravos e de açúcar entre os séculos 17 e 19, esteve isolada por longo período entre 1850 e 1950, o que explica a presença de tantos ricos edifícios tão bem preservados. Destaque para as ruas que circundam a Plaza Mayor, onde não entram automóveis, o que permite admirar com calma os detalhes das fachadas do casario. E vale a pena, também no centro histórico, fazer uma parada na Canchánchara para tomar o drink da casa, no terraço de uma bela construção do século 18, ao som de música ao vivo.

Ancon

Ancon – Trinidad

Trinidad fica perto (12 km) de praias lindas, como Ancón, onde ficava nosso hotel, aliás, construção horrorosa, com jeitão de colônia de férias de país socialista, onde fomos obrigados a ficar apesar de termos reservado e pago, com meses de antecedência, outro bem melhor. Na maior cara de pau a agência local disse que nada poderia fazer porque a operadora costumava trabalhar com overbooking. Mesmo assim valeu, os apartamentos eram de frente para o inigualável mar do Caribe e a tarifa era all inclusive, quer dizer, mojitos free, mas infelizmente servidos em copinhos de plástico.

Monumento no local onde os guerrilheiros comandados por Guevara destruíram o comboio blindado das tropas do governo.

Museu do trem blindado, Santa Clara.

O próximo destino foi Santa Clara, capital da província de Villa Clara e cidade importante na recente história do país: foi cenário da operação que, em dezembro de 1958, apressou a fuga do ditador Batista, com a destruição do até então inexpugnável comboio blindado das tropas do governo. O trem foi descarrilhado pelos guerrilheiros comandados por Guevara e no lugar do episódio há agora um monumento em que se utilizam alguns de seus vagões. É a típica cidade do interior, com ruas calmas e parques com coreto, onde foi possível observar alguns aspectos do cotidiano do país: escolares impecavelmente uniformizados caminhando pelas ruas, em bandos ruidosos, taxis charretes puxadas por cavalos, conduzidos por figuras tão loquazes quanto seus colegas motorizados.

Conjunto escultórico Che Guevara, na Praça da Revolução.

Conjunto escultórico Che Guevara, na Praça da Revolução.

A figura de Guevara domina a paisagem; além de placas e de estátuas em sua homenagem, espalhadas pela cidade, há um impressionante conjunto escultórico que leva seu nome, na Praça da Revolução. O complexo reúne, em belo projeto, um memorial e um museu, onde estão expostos, em ordem cronológica, objetos e documentos que contam a vida do herói de forma didática, mas atraente. Bem diferente do Museu da Revolução em Havana, instalado na antiga residência presidencial, prédio feioso e mal conservado, onde o acervo é exibido em salas acanhadas e escuras, com técnica expositiva que lembra as “feirinhas de ciência” dos alunos das escolas secundárias no Brasil.

Nosso hotel era distante do centro, em mais uma “furada” da agência cubana, mas desta vez fomos beneficiados com a troca. Era um hotel fazenda, bonito e agradável e a necessidade de pegar taxis nos dava a oportunidade de conversar com motoristas como o Juan, engenheiro e marido de uma psiquiatra e professora universitária e o Federico, físico, especializado em radioterapia, com estágios no A.C. Camargo e no Sírio Libanês de São Paulo.

Nosso último destino foi Cienfuegos (foto de capa: Palácio de Valle), chamada de “a pérola do sul”, cidade marítima e capital da província homônima, que fica encravada na baía de Jagua, a mais bela de Cuba. Ficamos hospedados em um hotel na Punta Gorda, a 2,5 km do preservado centro histórico, aonde se chega através de um boulevard também chamado Paseo del Prado, com edifícios elegantes e bem conservados e com uma filial da famosa sorveteria Copelia, de Havana. Fechada, infelizmente, por causa da crise no abastecimento de leite na ilha.

Um pouco fora da cidade fica o Jardim Botanico Soledad, que originalmente pertenceu à Universidade de Harvard, e o Castelo Jagua que visitamos no táxi do Manolo que, para variar, era advogado e tinha sido presidente de tribunal.

Para terminar, uma história bem cubana: acomodados para jantar, já sentados à mesa do luxuoso restaurante do hotel (100% estatal, como todos em Cuba), somos advertidos pelo jovem e atencioso garçom de que não valia a pena pedir nada, porque as refeições ali servidas eram caras e ruins. Muito melhor e mais barato era o restaurante que havia em frente, para onde nos conduziu alegremente, depois de ter pedido licença a seu gerente para se ausentar por alguns minutos. A comida não era lá grande coisa, o restaurante era feio e a música chata, mas o programa compensou pelo inusitado da situação, que ilustra bem o que acontece na ilha e na cabeça de seu povo nesse momento de transição.

Cienfuegos

Cienfuegos

Paseo del Prado

Paseo del Prado

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Sobre o autor

Beto Dixo

Consultor aposentado, viajante ainda na ativa, apaixonado por literatura e cinema, curioso por coisas e pessoas.

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