Colunistas Daqui Heloísa Reis

Da capacidade de imaginar à ação política

Escrito por Heloísa Reis

Entre o ente devedor e o ente consumidor há um espaço que poucos veem e muito menos dele têm consciência. Em nossa vida privada fortemente privilegiada na escala de valores das últimas décadas tendemos a buscar refúgio na interioridade, o que nos levou ao distanciamento da noção do coletivo e de que somos, na verdade, todos um.

É preciso muita imaginação para escaparmos das imposições angustiosas diárias das notícias e dos acontecimentos mundiais.

helo1Hannah Arendt chama esse processo de “desmundialização” que paradoxalmente acontece em paralelo com a reconhecida globalização econômica e cultural. Diz ela ter ficado estarrecida com a aceitação e a banalização das práticas desumanas encontradas na sua pesquisa para elaboração do livro “ Eichmann em Jerusalém” .

Nessa linha de pensamento ela atinge o ápice de uma questão presente hoje nas chacinas nas prisões do Brasil e nas guerras entre etnias e grupos com interesses econômicos no Oriente além de tocar outras questões. As formas políticas atuais burocratizadas por indivíduos normais estão descompromissadas da visão mais ampla e reflexiva sobre a ideia de sociedade como sendo um organismo único maior.

A resposta dos indivíduos a esses estímulos imperceptíveis parece gerar a preferência generalizada do indivíduo em ficar no espaço entre o dever e o consumir camuflando – até por conforto e proteção – a realidade, para não pensar ou imaginar um mundo diferente.

Em contrapartida, o acesso à imaginação dá-se inevitavelmente pela Arte. Seja de que modalidade for, ela exige o desapego dos padrões, exige a coragem de criar, exige a formação de novas sinapses, exige o abandono da realidade imposta, exige o uso do hemisfério direito do cérebro – seja fazendo ou fruindo uma obra de arte. Daí pode-se dizer que um sujeito iniciado nos domínios e nas consequências da Arte é um privilegiado e um vencedor sobre as imposições subliminares a que a massa está exposta e impelida diariamente.

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Heloisa Reis, “Em mar revolto”- rede de chapa expandida, fio encapado e acrílicas sobre madeira.

As coisas prontas, as imagens excessivas, as obscenidades mais obscenas que o obsceno – citando Jean Baudrillard – as distrações, aí estão tentando abafar toda e qualquer capacidade do ser humano imaginar um mundo diferente. As “Estratégias Malévolas” apontadas por Noam Chomsky embora grassem soltas em todos os meios e estratagemas de comunicação aí estão para serem repelidas ou confrontadas a fim de que não tenhamos que viver apenas soterrados pelos atrofiamentos de caráter político, econômico e social que nos assombram historicamente.

Encarar a Arte como um possível caminho em direção à liberdade e à responsabilidade que temos uns para com os outros aparece como um ato de resistência. Procurar conhecer para fazer diferente: exercer a capacidade de ver o todo, intuir caminhos e formas de segui-los, sair do conforto habitual, e ir em busca do momento re-criativo .

Assim fica o convite: instrua-se na Arte, solte sua imaginação, constitua-se como sujeito da ação e da reflexão.

Aja politicamente!

Sobre o autor

Heloísa Reis

Artista visual e arte-educadora, pesquisa a linguagem da arte contemporânea e sua importância enquanto instrumento de transformação. “Pinta e borda”, constrói objetos e gosta de ler e escrever. Atua em grupos como MDGV, Transition da Granja e Grupo ArteJunto procurando aprender com eles a arte de refletir a cidadania.
www.encontrosheloisareis.blogspot.com

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