Colunistas Duplamente Juliano e Pedro Labigalini

Deixando a cervejinha de lado

Esta não é e nem vai ser a geração que mais consome qualquer tipo de droga, sejam elas o açúcar, uma droga bastante refinada, ou a Cannabis, que era usada nas saunas gregas cerca de 2500 anos atrás. A verdade é que todas as gerações de todas as civilizações usavam drogas. E se não as usavam é porque não conheciam-nas. Isto se dá pois é natural e inerente aos animais o uso psicotrópicos. Javalis consumiam a árvore Tabernanthe Iboga, usada em seguida por tribos africanas em rituais.

A alteração da realidade já é o suficiente para cativar o ser humano. O chá de camomila ou o cafezinho da tarde causam alguma alteração no humor ou na disposição. E portanto a pergunta é: a partir de quando é uma droga? Seria muito ingênuo acreditar que a proibição inibe o uso de entorpecentes. Crer que uma simples desautorização ao seu filho fará com que ele não consuma drogas seria fora da realidade.

Se proibir o consumo de algo fosse realmente efetivo, não haveria nem ao menos o combate ao tráfico. Porém a proibição seria coerente se todas as substâncias que causam alterações no estado do indivíduo fossem banidas, mas basta ligar sua TV no domingo às quatro da tarde e notar que o produto mais ofertado nos comerciais é uma droga. Ou parar para perceber que o álcool está presente em todas as ocasiões, desde um chá-de-bebê até um casamento e que não consideramos a cervejinha nossa de cada dia como um entorpecente.

A questão da relação entre os jovens e as drogas é bastante distinta quando a analisamos em diferentes classes sociais. Aqueles mais pobres e dispostos a adentrar neste mercado, que oferece remuneração muito maior do que de qualquer emprego comum, acabam como fabricantes e distribuidores; já aqueles de classe mais alta acabam somente como mercado consumidor.

A sociedade é o maior centro de recrutamento de traficantes, pois um Estado que proíbe o consumo, a venda ou produção de substâncias acaba perdendo o controle sobre elas e a chance de tirar certos proveitos de uma situação de comando. Tais proveitos são a arrecadação de impostos, a garantia de um produto de qualidade, o que provocaria certa diferença na questão da Saúde Pública e a diminuição ou extinção do tráfico, porque afinal, se o Estado oferece o mesmo produto que um traficante, porém com preços mais baixos e qualidade superior, tal mercado paralelo tende a se extinguir por falta de consumidores.

Porém o controle do Estado ou a legalização sobre o consumo de drogas não deve ser somente vomitada sobre a sociedade, principalmente quando se trata da questão jovem. A legalização traria seus benefícios à população, porém, estes são questionáveis quando direcionados à parcela mais nova. Tais resultados benéficos só seriam sentidos nesta parcela se a legalização fosse aliada a um forte programa de educação, de redução de danos e instrução do uso de drogas.

Deixar a hipocrisia (e a cervejinha) de lado talvez seja um grande passo para enxergar de forma mais ampla o consumo de entorpecentes que vai além do seu sagrado uísque. Vale mesmo a pena perder crianças para o tráfico, manter um tabu tão grande sobre algo que sempre manteve contato com a natureza humana e deixar algo que poderia ter rédeas do Estado em um mercado paralelo?

A proibição não é a solução para o Estado e nem para que seu filho deixe de usar algo; é somente uma maneira de limpar suas mãos perante uma questão mais ampla e que não é facilmente resolvida. A solução está na colocação de regras, nos acordos, nas instruções dadas e nas limitações estabelecidas.

 

Sobre o autor

Juliano e Pedro Labigalini

Gêmeos idênticos unidos sempre. Apaixonados pelas questões do mundo afora, buscando expressar através de imagens e textos como veem o mundo.

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