Colunistas Crônica Lívia Guimarães

Deixem minha fobia em paz

Escrito por Lívia Guimarães

Hoje a crônica é sobre o Medo. Isso mesmo, com letra maiúscula, e sobre como ele foi libertador para mim.

Em 1996, aos 26 anos, os sintomas começaram. Um ligeiro incômodo ao enfrentar turbulências no avião. A essa altura, eu já era uma executiva razoavelmente viajada, embora ainda tivesse muito o que voar na vida.

Nada muito preocupante naquele momento, apenas resultado do excesso de cobertura da mídia em um acidente da Tam, na cidade onde vivia.

Aliás, falando em viagens, eu gostava muito de aviões. Venho de uma família de pilotos militares, cresci em uma casa repleta de aeromodelos, em que eram frequentes as histórias sobre feitos dos pilotos da segunda guerra.

Adulta, passei a gostar mais ainda de aviões como passageira da classe executiva, graças ao cargo que ocupava em uma multinacional nos tempos em que o nível de conforto, de mimos para este tipo de viajante era outra coisa.

Gostava especialmente da classuda Suissair e seus talheres de prata. Achava gostoso passar pelas nuvens, ouvir os barulhinhos do preparo do café da manhã a bordo.

Mas em algum ponto a coisa degringolou.

O incômodo localizado nas turbulências se espalhou por todo o tempo dentro do avião, embora naquela época eu ainda pudesse administrar bem a situação sem muletas químicas e em silêncio.

Para tentar amenizar a coisa, eu oscilava entre brincar com o assunto e adotar a estratégia de engolir o choro. Assim fui levando.

Um vinho, um remedinho para ajudar no sono, foram artifícios que funcionaram durante certo tempo, até que a perspectiva das viagens passou a me deixar em estado de ansiedade prévia quase insuportável.

A partir daí a coisa só piorou, gradativamente, evoluindo para ataques de pânico brandos, médios e graves, que culminaram no meu afastamento completo das máquinas aladas.

Olhando para trás, houve várias situações que até hoje rendem boas risadas entre meus amigos, e que, lembradas através das lentes do tempo, também me divertem. O dia em que mal entendi que o avião estava sem freio porque escutei a conversa de duas comissárias falando sobre o carrinho do lanche com problemas no breque e paniquei, o dia em que meu ex-marido perdeu as passagens para a nossa lua de mel nas Ilhas Fiji e eu comemorei por dentro (depois elas foram achadas, as malditas!), o dia em que fiz o comissário me dar umas pílulas às escondidas depois de implorar por misericórdia (fazendo o coitado correr o risco de perder o emprego), o dia em que apelei para o fato do comandante ser conhecido do meu irmão piloto e o fiz prometer me avisar toda vez que houvesse turbulência.

“Como alguém tão inteligente, que sabe sobre o quanto é seguro voar pode ter um medo irracional desses? Gente, é só mentalizar que está tudo bem…. Por favor, a viagem é rápida, logo você chega e nem vai sentir…O que você vai falar para a sua filha quando ela quiser ir para a Disney”? Foram coisas que eu ouvi. E ainda ouço.

Mais ou menos o mesmo que dizer a um depressivo: “Se anima vai, olha o sol lindo lá fora” ou para um obeso: “ Controla a boca, é tão fácil! É só ter força de vontade, viu?”

O julgamento alheio era duro, a incompreensão, a cobrança social, a crítica velada sobre alguém incapaz de domar seu medo eram tão cruéis quanto as horas dentro do avião. Não, na verdade, eram bem piores, porque me faziam voar e sofrer. Para a maioria das pessoas medo é sentimento vergonhoso, o contrário de fibra e coragem. Coisa de gente fraca.

Mas confesso que havia também um lado meu que se orgulhava do estoicismo do engole o choro. Achava bonito.

Enquanto isso, tentava de tudo, terapia de regressão às vidas passadas, a mais imediatista hipnose, a famosinha programação neuro-linguística e até a boa e velha consulta espiritual.

Aos 40 anos, esgotada e depois de um ataque em um vôo para Milão que deixou meu marido num saia justíssima, dei um basta. Pedi demissão da empresa onde trabalhava na época, e que demandava viagens frequentes, e assumi que a partir daí, até que me sentisse melhor sobre o assunto, não entraria mais em um avião. Decisão difícil e só possível com o apoio do meu marido, que tem a sensibilidade para perceber o tamanho do meu sofrimento (e também bom senso para evitar outros micos aéreos).

Dá para imaginar o impacto que não entrar em um avião trouxe para a minha carreira e vida familiar. Recusar trabalhos, projetos, deixar de visitar parentes, de viajar para lugares novos, restringir férias, enfim, uma chateação. Lembro-me de um projeto de consultoria que fiz com meu marido, e que envolvia cidades distantes como Votuporanga, e da nossa ida de ônibus leito. Só com muito amor da parte dele, viu?

Além disso, uma coisa curiosa aconteceu, passei a ter uma atração irresistível por qualquer destino de agências de turismo. Caribe em 12X, Escócia no verão, Papai Noel em Gramado e Canela, tornaram-se meus novos objetos de desejo.

Neste momento você pode estar se perguntando em que exatamente a fobia é libertadora.

Depois de tantos anos disfarçando, assumir o problema e dar nome a ele, sem vergonha, tirou um peso das minhas costas. Poder dizer: “I am so sorry. Você acha estranho? Eu também, fazer o quê?” foi o primeiro grande passo. Afinal, ninguém pediu a fobia, assim como ninguém quer ser diabético ou hipertenso.

Poder passar a dizer “Não” em alto e bom som foi outra coisa boa. E com isso descobrir pessoas que se solidarizaram comigo sem julgamento: minha irmã de outra cidade que passou a visitar-me sem nunca mais cobrar que eu fosse até ela, meu amigo-parceiro de trabalho que sempre dribla a dificuldade das viagens nos projetos para que possamos trabalhar juntos e, lógico, meu marido, quem me ajudou sempre.

Não sei que tanto relutei a fazer terapia, mas em 2013 procurei ajuda novamente, desta vez psiquiátrica e psicológica. Sem apelar para imediatismos, soluções instantâneas, entendendo que a fobia devesse ser a ponta de um iceberg. Tive que driblar minha resistência interna. Eu, em um consultório psiquiátrico? Queria poder ver hoje minha cara na primeira consulta. Desconforto total.

Segui direitinho o tratamento, do qual fazia parte terapia. Ai, ai, ai…falar da mãe, do pai….desenterrar a infância? Que chatice…

Na primeira consulta com a psicóloga, ouvi a seguinte frase:
– “Você ainda vai agradecer pela fobia. Elas geralmente salvam as pessoas, não da temida catástrofe, mas delas mesmas”.

Admirei a coragem daquela mulher em me dizer tal coisa e resolvi embarcar com ela na minha mais importante viagem.

Se voltei a entrar em um avião? Ainda não. Mas não estou nem um pouco preocupada com isso.

Para quem é a homenagem sincera? Para todas as pessoas que passam pelo mesmo problema. E para as tantas outras que conseguem compreender e ajudar.

Sobre o autor

Lívia Guimarães

Proprietária da Ponto Luz, Consultoria de Marketing.

Escreve no seu blog maletaamarela.com.br, por puro prazer, textos sobre o cotidiano através de um olhar sincero e divertido.

Blog: maletaamarela.com.br

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