Colunistas Duplamente Juliano e Pedro Labigalini

Do Coliseu do ENEM à primavera

Mais um ano se passou e aproximadamente 10 milhões de jovens em todos os cantos das terras um dia tupiniquins foram avaliados através do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Como de praxe, tivemos o “show dos atrasados”, o tema da redação pertinente e a reafirmação de que o vestibular é uma das catracas mais injustas da contemporaneidade.

As recentes notícias de que candidatos haviam comprado o gabarito da prova desanimam qualquer participante da avaliação, uma vez que a vaga de alguém que se esforçou de maneira incessante foi tomada por outra pessoa que possuía o poder aquisitivo maior. Porém, a maioria das vagas já é definida pela capacidade de investimento em educação do candidato. O vazamento do gabarito só classificou aqueles que não possuem mérito, mas possuem dinheiro. Sem o segundo, as chances de sucesso são baixas, por mais que o candidato mereça a vaga.

Nessa avaliação, que no fim das contas testa somente a habilidade de fazer prova e decorar conteúdos muitas vezes rasos ou inaplicáveis do estudante, vemos o quão falho é o nosso sistema de ensino. A ilusão de que existe competição nessa prova é refletida do lado de fora dos portões, onde coros do coliseu do ensino bradam em comemoração ao atraso de gladiadores.

O sofrimento do próximo não nos toca, pois não exercemos a prática de inverter os papéis. Enxergar humor em uma pessoa chorando porque se atrasou segundos por qualquer que seja o motivo é crueldade pura. Basta se colocar no lugar de alguém que estudou um ano inteiro, passou por meses estressantes sob provas e aprendizados focados justamente para o dia do vestibular e que, por um descuido, perdeu a prova. Fazendo essa simples ação, um lampejo de razão aparecerá. Rir do sofrimento alheio é inconcebível sob os olhos da sensatez humana, e natural sob a ótica de um algoz.

Enquanto estudante, preciso fazer aqui um desabafo. Sinto tremenda revolta quando vejo jovens como eu utilizando em suas roupas escudos de cursinhos e colégios. O sistema educacional é cruel e, como estudantes, vivemos isso na pele. Ver um de nós vestindo a camisa do colégio que o preparou para estar ali me remete à ideia de um escravo orgulhando-se de seu capataz. Deveríamos estar juntos lutando por uma educação que não segregue, que una e que possua testes que avaliem algo de fato.

Por outro lado, enche meus olhos de brilho saber que os estudantes no Paraná bateram recordes históricos no quesito luta. Nunca em nenhum período houve um número próximo de mil ocupações escolares, por mais que essa instituição tenha se mantido intacta nos últimos séculos; ou seja, existe um movimento contrário a este sistema educacional (que cada vez mais deseduca) e é esperançoso saber que não é um movimento pequeno ou partidário, que traveste interesses particulares, e sim uma mobilização que visa o coletivo e que tem iniciativa de jovens como nós.

O Brasil, enquanto país de contrastes, vive mais um deles. De um lado, a reafirmação de uma catraca, do outro, a Primavera Secundarista. Que contexto interessante de se viver…

Sobre o autor

Juliano e Pedro Labigalini

Gêmeos idênticos unidos sempre. Apaixonados pelas questões do mundo afora, buscando expressar através de imagens e textos como veem o mundo.

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