Colunistas Heloísa Reis

Dos Imprevistos na Arte e na Vida

Escrito por Heloísa Reis

como uma onda no mar
Lulu Santos

Imprevistos do dia, do tempo, da política, da economia, da alma, das pessoas… da vida. Difícil lidar com eles, mas absolutamente necessário.

Quantas vezes rejeitamos acontecimentos que nos desviam de uma conduta planejada aborrecidos e incomodados por termos que nos adequar e refazer planos já anteriormente pensados e preparados.

No Japão a arte do Kintsugi consiste em reconstituir-se um objeto cerâmico que se quebrou, unindo-se seus cacos com pó de ouro. Essa atitude não apenas reconstrói o objeto mas o valoriza pela sua característica inédita, e pelo respeito ao acaso que o fez transformar-se em algo único.

Na conquista do nosso mundo e no planejamento de nossa vida, a melhor estratégia sem dúvida é a do saber improvisar, saber lidar com os acontecimentos que ocorrem trazendo oportunidade de novas atitudes, novas posturas frente à vida.

Na arte também chamamos de acidente de percurso quando acontece uma escorregada do pincel ou um borrão a mais da tinta que escorre, ou quando o forno responde diferentemente numa queima de cerâmica. Olhar com carinho para o que aconteceu exige respeito ao acaso e ao que o próprio objeto quis tornar-se. Ou em palavras mais antigas, ao que Deus quis que acontecesse.

Cada pessoa com seus sonhos, seus objetivos, sua energia, busca chegar a algum resultado prático que compense as horas de sacrifício esforço e trabalho. Espera-se a fluidez dos acontecimentos, o desenrolar da lei de causas e efeitos e as justas compensações dos esforços dispendidos.

Porém a vida corre em ondas, e nada do que foi será, como diz o poeta.

Sonhos ficam pelo caminho, viagens são canceladas, planos têm que ser refeitos, relações são postas em cheque, posições e opiniões devem ser reconsideradas e a vida muda.

Na arte do Wabi-Sabi aprendemos a olhar a beleza das imperfeições, a perfeição do desenho de um monte de folhas acumuladas pelo vento.

Assim podemos ver a vida e seus acontecimentos.

No acúmulo de imprevistos e de fatos ocorridos podemos ver a beleza do milagre que é estar vivo e chegar à consciência de que cada momento é único e tem sua importância nesse monte de folhas que o vento da vida vai acumulando ao longo do tempo.

Os sonhos que se tornam impossíveis, os obstáculos que podem surgir, os sofrimentos que podem chegar, tudo pode ser encarado como imposições para a aceitação e para a transformação íntima.

Algumas pessoas resistem às mudanças e sentem mais dificuldade em lidar com o que não estava nos planos. Sofrem mais quando não percebem que os desvios são os tais acidentes de percurso que, muito mais que estorvos, são oportunidades de transformações e de superações de situações de dor e sofrimentos que podem resultar em mais força e em uma nova realidade.

Sejamos pessoas notórias, gente comum, sábios ou aprendizes, os acontecimentos não esperados um dia ou outro chegarão. Sonhos podem ser interrompidos, perdas poderão acontecer, doenças podem aparecer… tudo servindo ao propósito maior do aprendizado, da aceitação, da ação para a transformação. O que fazemos e como lidamos com a ansiedade, com o sofrimento e mesmo com a esperança, vai nos sinalizar a direção da aceitação ativa do fato ocorrido e muito possivelmente nos ajudar nas superações necessárias.

Esbravejar, revoltar-se e não aceitar as imperfeições da vida só nos atrapalhará no seguir da vida.

Por isso ouçamos a sabedoria do poeta quando canta:

“…Tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo. Tudo muda o tempo todo no mundo”

Sobre o autor

Heloísa Reis

Artista visual e arte-educadora, pesquisa a linguagem da arte contemporânea e sua importância enquanto instrumento de transformação. “Pinta e borda”, constrói objetos e gosta de ler e escrever. Atua em grupos como MDGV, Transition da Granja e Grupo ArteJunto procurando aprender com eles a arte de refletir a cidadania.
www.encontrosheloisareis.blogspot.com

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