Colunistas Duplamente Juliano e Pedro Labigalini

Ensino decorativo

Talvez a instituição que mais tenha se perpetuado mantendo suas tradições seja a Igreja, mas, em seguida, no ranking de monotonia estrutural está a Escola. A estrutura escolar, o modelo enfileirado que conhecemos resiste desde o Iluminismo, três séculos atrás. Pouco mudou de lá para cá.

De fato, a educação é a base para qualquer sociedade minimamente harmoniosa e coesa, seja ela advinda de instituições como a família ou a escola. Traz consigo benefícios que vão desde a saúde até a segurança pública, além dos progressos econômicos, é claro. Mas a questão é: esse modelo tradicional escolar que temos tem sido eficiente?

A Escola continua a mesma: uma sala de carteiras enfileiradas, uma figura de autoridade, horas de aulas conteudistas e raramente com aplicações práticas, horários rígidos e avaliações constantes de conteúdos “aprendidos”. Este sistema educacional está ultrapassado.

O que antigamente poderia ser um espaço voltado para o debate, para o aprimoramento do conhecimento e para o ensino do convívio em sociedade, passou a ser um local desconfortável, nada atraente e que perdeu sua essência de transmitir conhecimento passando a transmitir conteúdo. A Escola tem se limitado a provas e avaliações que no fim das contas nada avaliam além da capacidade de decorar fórmulas e definições, excluindo em uma folha de questões qualquer capacidade humana do indivíduo.

O foco das aulas deixou de ser a humanização, a preparação individual para a vida em sociedade, a cidadania ou o autoconhecimento e passou a ser apenas conhecimentos científicos. Claro, estes conteúdos são de extrema importância e devem ser ensinados, mas não com o propósito que lhes é proposto. O conhecimento científico deve ser transmitido e absorvido durante toda a vida, para conhecer melhor o mundo à sua volta e entender como a natureza funciona. Não deve ser destinado a somente uma prova aplicada ao final de doze anos de estudo.

O conhecimento deveria ser ensinado como uma camiseta de algodão, que talvez perca sua cor mas que existirá após bastante tempo e continuará presa ao corpo, e não como um grande emaranhado de linhas, que raramente tem utilidade prática e que hora ou outra não estará mais preso a você.

O vestibular é uma grande catraca que, assim como as provas, não avalia sua inteligência, e sim sua capacidade de memorizar toneladas de matérias e teorias. Afinal, afirmar que inteligente é aquele que passa no vestibular é burrice. Passa no vestibular o melhor preparado, o que teve mais conteúdos, o que teve condições de pagar um cursinho.

E, quando tratamos de cursinhos, percebemos que a educação não é igualitária, que entram em universidades melhores aqueles que conseguem pagar por elas. E aqueles que não entram não têm o mínimo preparo para a vida em sociedade pós escola. Talvez aprendam uma coisa na escola que terão que repetir na vida afora: obedecer. Obedecer e fazê-lo somente para cumprir uma ordem.

A Escola não liberta mais através do conhecimento, mas ensina a receber ordens. A educação não é mais libertadora, não é mais voltada a um mundo melhor para todos, somente a um mundo melhor para o indivíduo que mais pagar por ela. E é nossa obrigação como jovens e estudantes lutar por uma educação que liberte, que volte-se aos outros, que não nos ensine a abaixar a cabeça e sim a conversar.

Sobre o autor

Juliano e Pedro Labigalini

Gêmeos idênticos unidos sempre. Apaixonados pelas questões do mundo afora, buscando expressar através de imagens e textos como veem o mundo.

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