Coletivo Colunistas Joana Lee Mortari

Entendendo os motivos da doação: O impulso que vem de dentro

2016-1-15_maos_G
Escrito por Joana Lee Mortari
Doar é um enredamento em motivo, processo e resultado

Quantas vezes eu já não me perguntei o motivo pelo qual as pessoas doam? Inquieta, investiguei aqui, cutuquei alí. Fui tateando as referencias bibliográficas que eu já conhecia, perguntando para as pessoas que sabiam mais do que eu, buscando estudos nos centros de filantropia de fora do Brasil. Achei um monte de coisas, fiz reflexões no meu blog, mas nenhuma delas respondia, para mim, sobre os motivos da doação. Me dei conta que eu ansiava por uma resposta simples e direta para um assunto complexo.

Doar é um enredamento em motivo, processo e resultado, e cada um destes três aspectos dá corda pra boas conversas. Foi ao destrinchar o impulso que dá início a ação de doar, e conectar este impulso no que eu conheço porque vejo acontecer em mim ou na Acorde, que comecei a encaixar as peças do quebra-cabeças.

Imagine que você chegou em casa, abriu o armário e aquelas coisas abarrotadas te enervaram. Sejam as roupas, os utensílios de cozinha ou os brinquedos das crianças, chega uma hora que bate uma urgência em abrir espaço. A vivência em uma sociedade díspar nos coloca a opção de passar o que sai do armário para alguém que possa querer, precisar, para uma organização social que possa vender e, com o dinheiro, gerar fluxo de caixa para a causa que defende. Neste caso, no entanto, ação primeira é a de abrir espaço físico e, desta, nasce a oportunidade de doar o que saiu. O doar é coadjuvante.

Imagine a mesma situação: abrimos o armário e percebemos um monte de objetos guardados ao longo do tempo. No entanto, ao invés de uma ânsia por espaço, nos bate uma dor no coração… uma ansiedade. Pensamos em todas aquelas coisas paradas, sem uso há tempos, enquanto outras pessoas não têm acesso a tantos bens poderiam estar usando. Esta pressão moral pode ser o motivador de uma limpeza urgente. Ou, mesmo que não haja culpa, pode haver uma busca consciente por um equilíbrio social. Em ambos os casos, o impulso está mais ligado ao campo moral do que material.

Em todos os casos houve doação, e uma pessoa ou uma organização se beneficiou. Se olharmos para eles de forma estática, sem olhar a intensão, não percebemos a diferença do porquê. Mas por que o porquê importa?

Quando eu recebo um pedido de retirada de doação na Acorde, as intensões se manifestam na forma como a pessoa se coloca. Tem os que dizem “olha, tenho um fogão para doar, tá em ótimo estado, mas tem que ser amanhã”, e no outro extremo tem quem fale “eu fiz uma reforma no meu escritório e pensei em te mandar os móveis, te interessa? Tem tais e tais coisas e posso mandar entregar na Acorde”

É possível que todas as doações façam sentido e sejam bem-vindas, mas é com este último que eu vou querer me relacionar porque ele está olhando para mim e se colocando ao meu lado. Se eu consigo entender estas diferenças, eu me torno uma criadora de oportunidades de novos parceiros. E, se for o caso, fica mais tranquilo dizer “sinto muito, não podemos amanhã”.

Na próxima coluna: Entendendo os motivos da doação: o impulso que vem de fora.

Sobre o autor

Joana Lee Mortari

Responsável pelo Desenvolvimento Institucional da Associação Acorde, uma organização que promove o desenvolvimento de crianças e jovens na periferia de Embu das Artes e Articuladora do Movimento por uma Cultura de Doação. Membro do conselho do Instituto Geração e da Associação Cairuçu. Formada em Direito pela Universidade Mackenzie e pós-graduada (LL.M) pela Faculdade de Direito da Universidade da Pensilvânia, nos EUA. Pós-graduanda no programa “Reflective Social Practice” pelo Crossfields Institute (UK) e Alanus University em Bonn, na Alemanha.

Acorde: http://acorde.org.br

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