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Felicidade faz bem – com virtudes

Escrito por Heloísa Reis

Já que neste mundo não existe a perfeição  e – bem ao contrário –  diariamente temos que lidar com problemas, dissabores, desentendimentos  e  carências, por que não nos focarmos naquilo que nos faz felizes? Um sorvete de vez em quando… um papo  com amigos, uma taça de vinho, um chopinho no final da tarde… Só que para usufruirmos desses  pequenos e dos grandes prazeres, já dizia Aristóteles,  cinco séculos antes de Cristo, as virtudes internas devem estar  dentro de nós.

Para o filósofo, a Felicidade é algo muito diferente do conceito contemporâneo que aliás muitas vezes a confunde com distração e entretenimento. Não raro essa sensação parece  preencher o tempo – quando na verdade o esvazia.

E que virtudes são essas que podem nos fazer felizes ? O poema épico Psychomachia, escrito por Prudêncio e que  ganhou enorme popularidade na Europa na época medieval,  lista as Sete Virtudes  que  parecem ter caído no esquecimento da humanidade.

Foto Heloísa 2

“Psicomaquia” manuscrito de Prudêncio, poeta medieval que descreve a luta entre as virtudes e os vícios.

A Castidade, em oposição aos excessos da luxúria – totalmente em desuso principalmente ligada ao conceito de “liberdade” e muito ausente nos atuais apelos publicitários ao consumo; a Caridade, em oposição à avareza e em reforço à generosidade, que refere-se não apenas aos bens materiais mas também à doação de tempo e atenção para com o outro; a Temperança, controle e  moderação que sempre contemplam a justiça; a Diligência, que se opõe à preguiça, trazendo a persistência, a ética, a disciplina e a motivação; a Bondade – do latim Benevolentia, que em oposição à inveja  implica em amor sem egoísmo, sem rancores; a Paciência, que carrega a serenidade, a calma e a não-violência na resolução dos conflitos; a Humildade, que se  opõe à vaidade, cultivando a  modéstia e o respeito; e a Sabedoria, que vem com a simplicidade, com a pureza do saber-viver e com o aprender sempre .

Se houver a presença dessas virtudes não fica difícil acessar  a capacidade de adaptação a novas situações e reconhecer a necessidade da ajuda de outras pessoas, aceitando apoio da família e de amigos. Também fica fácil buscar a competência para desenvolver nosso trabalho, evitando problemas  com  autoconfiança e  reconhecendo – na dimensão certa – as nossas próprias falhas.

Pertencer a um grupo também contribui para a Felicidade o que permite que sejamos gentis no relacionamento com outras pessoas. Mas principalmente nos permite desenvolver um gosto pelo que  fazemos e pelo que  temos, cultivando contudo a independência pessoal .

foto Heloisa 1Aristóteles reforça esse pensamento pois para ele um homem feliz é um homem virtuoso.  Em asua  Ética e  Filosofia Política, ele traz os conceitos da eudamonia eu ((bom)  e daimon (espírito), que vem fazendo muita  falta neste nosso mundo desescolarizado e politicamente desvirtuado em sua essência .

Outros filósofos da cultura greco-romana também trataram de pensar neste assunto sempre evidenciando a importância da Felicidade para a vida humana.

O que nos parece evidente é o atual afastamento dessas correntes de pensamento e o  desenvolvimento  de um “pensar” equivocado –  distanciado da essência intrínseca dos valores da alma.

Será uma empreitada retomar os rumos. Mas quem não quer a tal Felicidade?

 

Sobre o autor

Heloísa Reis

Artista visual e arte-educadora, pesquisa a linguagem da arte contemporânea e sua importância enquanto instrumento de transformação. “Pinta e borda”, constrói objetos e gosta de ler e escrever. Atua em grupos como MDGV, Transition da Granja e Grupo ArteJunto procurando aprender com eles a arte de refletir a cidadania.
www.encontrosheloisareis.blogspot.com

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