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Hilda Hilst: uma escritora e poeta ousada, irreverente e pouco conhecida, na Flip 2018

Escrito por Sílvia Rocha
Entrevista com Rubens Jardim sobre Hilda Hilst, a poeta que será homenageada na próxima FLIP

Com a escolha de Hilda Hilst como homenageada na FLIP 2018 (Festa Literária Internacional de Paraty), que vai acontecer de 25 a 29 de julho de 2018, entrevistei Rubens Jardim, um poeta que, além de sua fértil produção poética, vem se dedicando há anos em pesquisar, contatar e publicar poetas brasileiras.

Silvia Rocha: Há quanto tempo você desenvolve seu Projeto Mulheres Poetas e por quê?

Rubens Jardim: Tudo começou com um ataque de fúria e um desabafo. Estava inconformado com a posição das mulheres em nossa literatura. Que Silvio Romero e José Veríssimo — importantes historiadores da nossa literatura do século 1 9 — registrassem poucos nomes femininos até dá para admitir, com ressalvas, é claro. Mas um Alfredo Bosi ter procedimento semelhante, me deixou perplexo. Aí “baixou Xangô e publiquei um desabafo. Felizmente, esse desabafo teve continuidade e eu comecei a pesquisar o trabalho das mulheres poetas do Brasil. Já estou fazendo isso desde meados de 2011. Claro que para realizar essa pesquisa deixei um pouco de lado meu trabalho autoral como poeta. Mas não me arrependo. Faço isso movido pela paixão e pelo encantamento. E sinto que essa série representa uma contribuição muito importante para a história da poesia brasileira. E muitos frutos já estão sendo colhidos. Já surgiram várias antologias só com poetas mulheres e, mais recentemente, o movimento Mulherio das Letras, liderado pela premiada Maria Valeria Rezende, com repercussão nacional. E posso dizer que na série AS MULHERES POETAS… foram incluídas desde poetas como Ângela do Amaral Gurgel (1725), Barbara Heliodora (1758) até uma jovem, caso de Luiza Midlej, que tem menos de 20 anos.

SR: Ao todo, quantas poetas você já reuniu?

RJ: Já foram feitas 101 postagens em diversos espaços das redes sociais. Já foram contempladas mais de 400 poetas de vários estados e várias épocas e mais de 1600 poemas. Pretendo, agora, fazer livros digitais dessa série e, mais adiante, buscar uma grande editora para transformar em livro essa pesquisa que durou 6 anos.

SR: Como você recebe a escolha de Hilda Hilst para a edição de 2018?

RJ: Nesse ano recheado de péssimas notícias para nós, brasileiros, a escolha do nome de Hilda Hilst, como homenageada da FLIP de 2018, abre um clarão em meio às nossas dificuldades. Ela merece um lugar de honra e destaque por diversas razões. Pela qualidade da obra extensa, (parece que são 41 livros publicados) em pelo menos 4 gêneros: poesia, ficção, teatro e crônica. Por não ter sido ainda, em que pese sua obra invulgar e incomum, analisada e esmiuçada em sua singularidade. Pela notoriedade pessoal, por ter sido uma mulher ousada e abusada, original e explosiva para a sua época. Não se pode esquecer daquele adeus que ela deu à literatura séria. No final dos anos 80, Hilda anunciou que escreveria só bandalheiras. É a sua famosa “virada pornográfica”. Mas fez isso para chamar a atenção e conseguir mais leitores, pois ela nunca se conformou em ser pouco lida e sua obra ser chamada de hermética e difícil. Leo Gilson Ribeiro (1929-2007), importante crítico, que foi meu colega na Editora Abril, a considerava detentora da “mais deslumbrante prosa poética do Brasil posterior a Guimarães Rosa”. E Alcir Pécora considera Hilda Hilst a maior escritora do Brasil. Mas já alertou: ela é ainda muito mal conhecida, tanto no Brasil como no mundo.

SR: Você poderia apontar seu poema preferido de Hilda?

RJ: São tantos e estão em tantos lugares aqui em casa que fica difícil a escolha. Mas vou ficar com um dos 4 que publiquei na série AS MULHERES POETAS:

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

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Volto em 2018 pondo poesia, muita poesia, espero.
E meu desejo para todos nessas festas de final de ano e para o ano de 2018:

resiliência, força e fé
para o que der
e vier

Sobre o autor

Sílvia Rocha

Sílvia Rocha mora na Granja Viana desde 1994.
É graduada e mestre em Comunicação Social – Jornalismo – pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

Pratica o haikai – micropoemas de origem japonesa, inspirados na natureza – desde 1984. Publicou a segunda edição de Estação Haikai e Gestação Haikai, pela editora É selo de língua, 2015. Ganhou o Concurso de Poesia Falada do Café das Flores e da Revista Escrita com As Quatro Estações do Ano, em 1987.

Escreve matérias, artigos e crônicas para veículos impressos e virtuais e conduz a oficina Haikai: universo em três versos em grupos, individualmente, presencialmente e à distância.

Site: www.silviarocha.com.br

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