Redação Território

Homenagem a Carlos do Mel

Escrito por Redação

Quem é da Granja o conhecia.

Foi com muita tristeza que recebemos a notícia de seu súbito falecimento.

Fomos buscar sua história no blog da Eco Feira, lançado recentemente em comemoração ao aniversário de sete anos da feira.

Leia a “doce” entrevista que ele concedeu a Silvia Rocha recentemente.

A ECOFEIRA TEM MEL

Por Silvia Rocha

Ele não sabe. 20785948_1823640780985996_9094898412454343190_o
Mas todo dia eu coloco um pouquinho do mel dele na minha água morna com limão, que eu tomo em jejum.
Ele também não sabe.
Que minha filha Lila gosta de passar o seu mel no rosto, nos finais de semana.
Outra coisa que ele não sabe: que, toda a quinzena, coloco o mel que ele vende na EcoFeira na banana amassada com granola do meu neto.
Ah! Mas ele sabe!
Que meu mel preferido é o da florada da laranjeira!
E hoje, fazendo as contas com ele, descobrimos que sou freguesa do Mel do Apiário Oettinger há 23 anos, e o comprava no Sacolão de Cotia, na loja Curumim.

Agora, o que talvez pouca gente saiba, é que o mel do Carlos esteve em todas as EcoFeiras Granja Viana, desde o seu início, em 2010, até hoje. Nas poucas vezes em que ele não pôde estar presente – e ele calcula que não passaram de quatro – o Leandro, da barraca de orgânicos, ao seu lado, vendeu os seus produtos.

A conversa com o Carlos se deu em alguns capítulos. Fiquei sentada em sua banca, por dois domingos, por um tempo. Ele me contou um pouco da história dele, de como tudo começou. Mas, graças a Deus, toda hora éramos interrompidos. Como ele vende bem os seus produtos! Mel de diversas floradas, própolis, geleia real e pólen.

No outro domingo, conversamos mais um pouco sobre a Granja Viana, onde ele mora, e sobre onde fica o apiário dele. Mas nossa conversa pôde se aprofundar na Padaria Romana, onde passamos quase duas horas conversando.

Tudo começou quando os avós paternos dele migraram para o Brasil, em 1921, quando a1a. Guerra Mundial terminou. O pai dele era nascido na Espanha, filho de pai alemão e mãe espanhola. O pai de Carlos chegou ao Brasil com dois anos de idade. Na bagagem dos seus avós, veio a centrífuga da família, uma máquina de extrair mel. A família se estabeleceu em Adamantina, estado de São Paulo, mas a produção de mel foi abandonada porque, naquela época, o mel era mais barato que o açúcar.

Nos idos de 1970, o pai do Carlos retomou a tradição melífera da família. Isto foi em Nova Odessa, uma cidade perto de Americana e Sumaré, também em São Paulo. Carlos tinha por volta dos dez anos e já ajudava o pai.

Com o falecimento de seu pai, surgiu a oportunidade de Carlos trabalhar com mel no sítio de um amigo alemão, em Brotas, também em São Paulo. A parceria foi de 1986 a 2001. Este amigo desenvolvia um projeto no qual doava mel para a merenda escolar das escolas públicas da cidade. Carlos trabalhava com ele, ajudando-o no projeto e, também, podia ter sua própria produção, com suas próprias abelhas.

Depois, decidiu alçar voo próprio, e procurou o SEBRAE para desenvolver um plano de negócios. Sempre na área melífera. Até hoje, tem a suas próprias abelhas e uma parceria, em outro sítio, também em Brotas, onde comercializa tanto o mel de suas abelhas, como o mel das abelhas de seu parceiro.

Carlos Oettinger é granjeiro e mora no km 26 da Raposo Tavares. Fez o Ensino Médio em Técnico de Edificações e estudou um ano de Jornalismo. É separado e tem um filho de 9 anos, que costumo ver, às vezes, na EcoFeira.

Ele teve, por quatro anos, a loja Melissa, no Jardim da Glória, que além de mel e derivados, também vendia produtos naturais.Atualmente, comercializa seus produtos na EcoFeira Granja Viana, na loja Curumim, no Country Shop, que fica no km 25 da Raposo Tavares, em uma Feira Livre, noturna, em Barueri e em uma quitanda nos Jardins. Ele também faz entregas para a sua clientela fiel: todo dia o Carlos tem pedidos de mel.

Pois é, o Carlos, literalmente, vive de mel.

E fico sabendo que para os produtores de mel, o ano começa na primavera. Eles contam o ano de primavera em primavera!

E agora, também sei a história do rótulo do mel que ele comercializa. Ele queria, mesmo, que o rótulo se parecesse com o desenho de uma criança, e queria que tivesse as cores do Brasil: verde, amarelo e azul. Sua amiga Cinthia Ianez Flores conseguiu o feito e a “cara” do Mel Oettinger é a mesma desde sempre.

Carlos me conta que é tímido, muito tímido, e estava bastante receoso em seu primeiro dia de EcoFeira. Com o tempo, foi se acostumando e hoje fica à vontade com seus parceiros e com os frequentadores da EcoFeira.

E acaba compartilhando comigo um sonho dele e do Leandro, seu companheiro de banca todo domingo, que vende verduras e legumes orgânicos: o sonho deles é ter uma produção de mel no sítio do Leandro, em Ibiúna.

Pois é. Na EcoFeira tem mel. Tem amigos. Tem parceiros. E sonhos. Doces como mel.

Foto: Alberto Lefevre

Sobre o autor

Redação

O Jornal d'aqui digital é uma prestadora de serviços que atua com comunicação na região da Granja Viana, Cotia (SP). Nasceu originalmente em 1979 como mídia impressa e assim atuou durante 35 anos. O formato atual surgiu a partir de um movimento de amigos/leitores inconformados com o encerramento de suas publicações.

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