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ÍNDIA – GOA E A LUSITÂNIA PERDIDA

Escrito por Beto Dixo

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“Tarcísio, vou contar ao teu pai!!!” Já estava há vários dias em Panaji, principal cidade de Goa, e essas eram as primeiras palavras em português que escutava. A voz feminina, em tom irritado e com forte sotaque lusitano, partia do corredor lateral do sobradinho situado em um beco pitoresco que eu percorria a pé, apreciando a arquitetura colonial, terraços e azulejos que me lembravam Diamantina e Ouro Preto.

Já no desembarque no aeroporto de Diabolim observara na esteira os nomes e sobrenomes portugueses escritos nas enormes e improvisadas etiquetas coladas nas malas: Antônio, João, Fernando e Mascarenhas, Souza, Santos. Mas quem recolhia a bagagem tinha sempre feições indianas e quando perguntado se falava português respondia que não, num inglês rudimentar.

A mãe do Tarcísio, com quem conversei longamente, foi logo se confessando saudosa dos tempos coloniais, quando Goa era um verdadeiro paraíso, “não havia esses indianos e hippies de agora”, comentário acompanhado por uma careta de desprezo. A partir de 1961, quando as tropas de Indira Gandhi invadiram e tomaram a colônia portuguesa, sem disparar um único tiro, o idioma entrou em processo de decadência, sem poder competir com a universalidade do inglês nem com a vitalidade das línguas locais, como o konkani e o marata. Já nos primeiros dias após a invasão toda a máquina administrativa do antigo Estado Português passou a ser dirigida por funcionários indianos, que não conheciam o idioma e em pouco tempo se eliminou o ensino do português nas escolas.

Nos anos 80, quando lá estive, a língua era falada apenas pela elite, como forma de afirmação social. Imagino que hoje deva ter desaparecido quase por completo, o que fez com que esse território da Índia passasse a fazer parte de um espaço geográfico conhecido como a Lusitânia Perdida, na companhia ilustre de Macau e do Timor.
Goa fica no Mar da Arábia, na costa ocidental do país, a cerca de 400 quilômetros ao sul de Mumbai. É o menor mastemple um dos mais ricos estados indianos. Os portugueses lá chegaram no século XVI, deixando sua marca na arquitetura, sobretudo nas igrejas e conventos, edificações pertencentes hoje ao Patrimônio da Humanidade da UNESCO.

Panaji, no estuário do rio Mandovi, é muito agradável com seus sobrados avarandados, muros caiados de branco e belos jardins onde reinam absolutas as primaveras, de coloração forte e variada como jamais vi em outro lugar no mundo.

A praia mais perto da cidade é Gaspar Dias, que eles chamam de “Daias” que é bem sem graça, muita sujeira na areia escura e dura.

Já Calangute, a 16 quilômetros de Panaji, é linda e era a praia mais popular na época, permanecendo ainda um reduto de pescadores mas já repleta de estrangeiros, principalmente europeus, hippies e nudistas.

A paisagem a caminho do litoral, acompanhando o rio, é muito bonita – coqueiros, arrozais e as onipresentes primaveras. Sempre fazia o trajeto em ônibus de linha, com o motorista buzinando o tempo todo, como é comum nas estradas do oriente. Às vezes cruzava o caminho com o vapor diário que deixava o cais do Mandovi rumo a Mumbai, com sua carga humana agitada e colorida.

Igreja do convento de S.Francisco de Assis

Igreja do convento de S.Francisco de Assis

Velha Goa também merece uma visita: fundada em 1510 , chegou a ter mais de 200 mil habitantes no começo do século XVII, seu apogeu. Vencida por uma epidemia de malária na metade do século XVIII, que provocou a mudança da capital para Nova Goa (hoje Panaji), é atualmente uma cidade morta, com muitas igrejas e monastérios, que atraem numerosos peregrinos e turistas. Sua localização no meio de vegetação exuberante , às margens do rio, é privilegiada.
Próximo destino: o Rajasthan, a província mais romântica do país com seus palácios ,cores e artes decorativas que se espalharam pelo mundo.

Sobre o autor

Beto Dixo

Consultor aposentado, viajante ainda na ativa, apaixonado por literatura e cinema, curioso por coisas e pessoas.

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