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Índia – Kerala

Escrito por Beto Dixo

Cheguei a Trivandrum, Kerala, num voo direto partindo de Madras. A cidade, importante centro cultural do idioma malaiala, não tem grande interesse, além dos belos parques tropicais. Seu principal atrativo é estar a apenas 14 km de distância das praias de Kovalam, certamente das mais lindas de toda a Índia. Nesse longínquo início dos anos oitenta o local, hoje balneário badalado, talvez pudesse ser comparado a Armação dos Búzios, no litoral fluminense, antes de 1964, quando a visita de Brigitte Bardot colocou o desconhecido povoado de pescadores na rota do turismo internacional.

Boudahnath

Boudahnath

O Kerala é um estado indiano detentor de vários recordes sociais: tem hoje cerca de 32 milhões de habitantes e se

destaca por possuir o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a mais alta expectativa de vida, a maior taxa de alfabetização e menor índice de mortalidade infantil de toda Índia, além de se orgulhar de ostentar as cidades mais limpas do país, o que não é pouco, numa população de mais de um bilhão de pessoas.
Mas não existem por lá templos fabulosos que fazem a fama de outras regiões, como o Tamil Nadu, nem sítios arqueológicos magníficos como Khajuraho. Em compensação seu litoral, estreita faixa de areia separada do interior por exuberante floresta tropical, chamada Costa de Malabar é um verdadeiro paraíso: dunas suaves, fileira interminável de coqueiros, canais e lagunas de águas cristalinas, sempre cercados de palmeiras.
Kovalam foi descoberta para o turismo nos anos trinta, mas ficou no esquecimento até o final dos 50 e início dos 60, quando foi atingida pela onda da contra cultura dos países ocidentais: transformou-se então em um dos pontos mais “quentes” da chamada rota hippie (hippie trail) que incluía boa parte do sudoeste da Ásia, principalmente Índia e Nepal.
A filosofia desses novos turistas era gastar pouco, consumir só o essencial, interagir com a população local e procurar ficar o maior tempo possível; na ressaca do movimento, quando lá estive, restavam ainda alguns cafés e pousadas baratas e, claro, abundante oferta de drogas. Fiquei hospedado na melhorzinha das pousadas, bastante precária, mas ao custo de um décimo do que pagaria no Kovalam Palace Hotel, o único que havia então por lá.
Kovalam tinha três praias principais, na época cada qual com seu público específico: ricos de meia idade em frente ao hotel de luxo, jovens europeus na do meio, hippies na última, ainda repleta de casas de pescadores, que alugavam quartos para a moçada.
Frequentei todas, a Hawah Beach era a minha preferida: linda, tranquila, ainda com atividades de pesca durante o dia e, ao anoitecer, com o espetáculo dos catadores de conchas, na arrebentação. Era a única ocasião em que se podia ver indianos entrando no mar: homens e mulheres, vestindo sáris e sarongs, peneira nas mãos, apanhando conchas que amontoavam na praia, para serem recolhidas mais tarde por uma fábrica de calcário. Inesquecível a visão daquelas silhuetas esbeltas, projetadas contra um céu vermelho alaranjado, movimentando-se com a graça de bailarinos.
Durante o dia, outro espetáculo, este tragicômico, ilustrava bem o violento choque cultural experimentado pela população local, pescadores religiosos e conservadores, em contato com os turistas ocidentais, principalmente mulheres europeias, e seus hábitos liberais.
Duplas de homens indianos, adolescentes, adultos e idosos, passeando pela praia, sempre de mãos dadas como é hábito no oriente. A rota percorrida mudava, mas incluía invariavelmente passar bem perto de todas as turistas que descobriam estendidas na areia, fazendo topless ou completamente nuas. A maioria nem se tocava, algumas como a italiana que descobriram no alto de uma duna e atrás de uma canoa, expulsavam os atrevidos aos gritos, com insultos e punhados de areia. A dupla logo se afastava correndo, mas prosseguia sem se alterar, até a próxima parada, nessa sua via nada sacra.

Durbar Square Katmandu

Durbar Square Katmandu

A tarde surgia sempre a mesma senhorinha na praia, sári surrado, trança grisalha, dentes estragados, carregando uma trouxinha de pano. Cumprimentava timidamente e pedia para mostrar seus produtos, recitando quase sempre o mesmo mantra, com poucas variações: “want some hash, marijuana”? Isso tudo com um meio sorriso amigável, como se oferecesse empada de frango, coxinha, amendoim torrado… Resquícios da passagem da hippie trail pelo Kerala. Próxima parada, Bombaim.

 

Dicas
Alojamento
Já ouvi de mais de uma pessoa a frase “na Índia, só dá para ficar em hotéis cinco estrelas”. Acho isso exagero, tudo depende do tipo de viagem que se pretende fazer. Só me hospedei em hotéis e pousadas modestos, a maioria razoáveis, alguns mais precários, sempre escolhidos em função da localização, para facilitar os deslocamentos. Confesso que só frequentei hotéis muito estrelados quando viajava a trabalho, a empresa pagava, claro, mas mesmo assim me incomodava o desperdício. Francamente, ninguém precisa de troca diária de lençóis e toalhas, 120 canais de TV, sauna, piscina, salas de massagem e ginástica, ainda mais estando o dia inteiro na rua. Sempre comparei essa situação aos condomínios cobrados em alguns edifícios em São Paulo, que custam caro e você utiliza muito pouco dos equipamentos e serviços incluídos na conta mensal.
Prefiro, mesmo viajando pelo Brasil, hospedar-me em locais modestos e, quando for o caso, fazer incursões periódicas nos hotéis de luxo, frequentando seus bons cafés, restaurantes e bares, pagando só o consumo e não suas diárias exorbitantes.

 

Sobre o autor

Beto Dixo

Consultor aposentado, viajante ainda na ativa, apaixonado por literatura e cinema, curioso por coisas e pessoas.

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