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Inhotim

Escrito por Beto Dixo
Galeria Adriana Varejão

Galeria Adriana Varejão

Há mais de dez anos, durante curta estadia em Belo Horizonte na companhia de amigos paulistas, alguém contou que lera dias antes, em uma revista de bordo, matéria fartamente ilustrada sobre um jardim botânico e uma coleção de arte contemporânea existentes no município de Brumadinho, a cerca de 60 km da capital mineira. Os amigos que moravam em BH nunca tinham ouvido falar do local, tampouco os funcionários do hotel e dos órgãos de turismo consultados.

Fiz nova tentativa em dezembro de 2007 e com alguma dificuldade encontrei o local, vencidos os percalços da rodovia, congestionada desde o aeroporto de Confins até os distritos industriais de Contagem e Betim, e das estradinhas secundárias, mal sinalizadas, ladeadas por uma paisagem devastada, consequência da atividade extensiva de mineração na área.

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Entrada de Inhotim

Surpresa e deslumbramento na chegada a Inhotim e a pergunta inevitável: como era possível a existência daquele oásis de beleza e sofisticação, tão distante de tudo e tão pouco divulgado?

O jardim estava ainda em formação e o acervo, exibido ao ar livre ou em galerias era pequeno, mas já chamava a atenção a ousadia do projeto e a qualidade de sua execução, desde a seleção das obras expostas até as impecáveis instalações de apoio, que incluía arranjos de mesa renovados diariamente nas lanchonetes e restaurante.

Voltei a visitar o local uma dezena de vezes, a última no final de 2015 e pude assim observar a evolução do empreendimento, desde a origem até sua transformação no maior museu a céu aberto do mundo.

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Bernardo Paz

Nasceu do sonho de um milionário mineiro da área de mineração, Bernardo Mario Paz, figura excêntrica (mistura de Oswaldo Montenegro e Kris Kristofferson, segundo matéria publicada no Estadão em 2009) e facilmente encontrável passeando por seus domínios, dono de uma biografia bastante original, que inclui vasta coleção de polêmicas e de matrimônios. O quinto casamento foi com a artista plástica Adriana Varejão, cujo trabalho ocupa uma das maiores e mais espetaculares galerias do museu.

Paz começou a comprar obras de arte contemporânea no início dos anos 2000, com o incentivo do artista Tunga e logo decidiu abrir sua coleção ao público na propriedade que possuía em Inhotim, que poderia abrigar grandes instalações (obras de difícil comercialização e preços atraentes) em meio à natureza.

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Beam drop de Chris Burden, 2008

O acervo teve como foco obras criadas a partir de 1960, algumas doadas pelos próprios artistas, outras cedidas pelo colecionador ou por suas empresas. As obras monumentais, fixas, foram colocadas em comodato de longo prazo; alguns desses trabalhos são projetos “site specific”, isto é, executados no próprio local, em diálogo com as características naturais e culturais do ambiente.

Inhotim tem hoje cerca de 70 obras em exposição, divididas entre trabalhos em instalações permanentes e outros expostos em galerias, que abrigam mostras temporárias de longa duração.

São vários os espaços expositivos, com trabalhos dispostos ao ar livre, em meio dos jardins, imersos na mata, no topo de uma montanha ou sobre um espelho d´água. Outras obras estão em espaços fechados, exibidas em construções projetadas especialmente para abrigá-las.

Paisagismo

Paisagismo

Não há um percurso linear estabelecido para visitar Inhotim, como acontece em museus convencionais; as trilhas sugeridas nos mapas e indicações propõem apenas trajetos mais viáveis entre obras ao ar livre e galerias. Para percorrê-las com a calma necessária para usufruir arte e natureza recomendo pelo menos dois dias inteiros.

O paisagismo não está enquadrado em estilo único, mas alguns princípios podem ser observados, como a preferência pelo uso de grandes maciços ou manchas de espécies, dando prioridade à introdução de variedades pouco utilizadas em projetos dessa natureza.

Restaurante Oiticica, onde o espaço se mistura à paisagem local, privilegiando a ventilação e a iluminação. natural

Em Inhotim, além da paisagem, também a arquitetura dialoga com a arte contemporânea. Se os antigos pavilhões revelavam poucas preocupações arquitetônicas, os mais recentes, a partir da Galeria Adriana Varejão contaram com intensa integração do artista na elaboração do projeto.

O museu é uma entidade privada, sem fins lucrativos, classificada pelo governo do Estado de Minas Gerais como uma Organização da Sociedade Civil e Interesse Público (Oscip). Sua manutenção é bancada por recursos provenientes dos negócios do empresário, captação de incentivos fiscais e patrocínios de grandes empresas. Tanto o idealizador do projeto quanto os principais apoiadores são do ramo de mineração, que sofre os efeitos da crise econômica do país e também da queda dos preços internacionais de seus produtos. Nos últimos anos houve queda nos investimentos além de cortes que chegaram a 30% dos funcionários, com redução de alguns setores administrativos e diretorias.

Tempo de delicadeza de Edgar de Souza

Tempo de delicadeza de Edgar de Souza

Alguns efeitos dessa retração já são visíveis para frequentadores assíduos como eu: paralisação de alguns projetos, adiamentos de inaugurações já anunciadas e até certa falta do cuidado na manutenção das instalações de suporte.

Mas visitar Inhotim continua a ser uma experiência intensa e sempre renovada, que provoca reações que podem até beirar o êxtase, como o que levou o repórter da revista “Travel”, do New York Times a chamá-lo de “a nona maravilha do mundo”.

Sobre o autor

Beto Dixo

Consultor aposentado, viajante ainda na ativa, apaixonado por literatura e cinema, curioso por coisas e pessoas.

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