Colunistas Duplamente Juliano e Pedro Labigalini

Já passou da hora

Quando tratamos dos jovens, tratamos de reflexos dos pais e da cultura onde estão inseridos. Tais reflexos muitas vezes são embaçados ou têm alterações na forma e cor. E o reflexo que comentarei é sobre a insistência de um pensamento retrógrado dos jovens, principalmente os homens, quando se trata de machismo.

Não é necessário ir muito longe para perceber que um forte machismo continua instaurado na nossa cultura. Basta ir na roda dos seus amigos e parar pra ouvir o que falam, exaltando a “mito” aquele que fica com muitas garotas e rebaixando a promíscua aquela que fica com muitos garotos.

O mesmo acontece muitas vezes nas rodas das próprias moças também, que utilizam do machismo para diminuir alguma outra mulher que tenham inimizade, comentando o tamanho de sua roupa, ou o número de relações que ela mantém.

Talvez essa linha de pensamento seja promovida pelos pais, ou pelas instituições que o indivíduo frequenta. Mas já estamos longe demais no tempo para a perpetuação de práticas machistas. A situação é bem pior do que imaginamos, e você tem colaborado para que ela continue sendo assim.
Segundo uma pesquisa feita pelo IPEA, 26% dos entrevistados afirmaram que mulheres com roupas curtas mereciam ser atacadas. Se não bastasse esse dado assustador, 58,5% dos entrevistados disseram acreditar que se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupro.

Sua colaboração nesses dados talvez não seja direta, mas o fato de não permitir que uma mulher tenha a liberdade de escolher quando se trata do seu próprio corpo, coopera com o pensamento de que elas não sabem se comportar, de que não podem se vestir de um jeito e por isso merecem ser atacadas.

A principal aparição do tratamento desigual no meio jovem está na relação entre namorados, onde o indivíduo acha que tem poder sobre sua parceira. Algo que acontece muito por conta disso é proibi-la de sair com uma roupa mais decotada ou curta.

Assim como o estabelecimento do tamanho das roupas da companheira, é muito frequente aos homens não permitir que ela tenha amigos. Não adianta falar que confia nela mas não nos outros, que você não namora espantalho, que  ela sabe o que quer e o que não quer. Se ainda assim, não permitir que ela saia com outros, então o problema está na sua relação. É sugerido repensá-la.

Sua namorada não mede suas roupas, nem impede você de ter amigas. E, se impede, sugere-se novamente rever a relação, uma vez que, quando baseada na confiança, um não deve limitar o outro.

Se você não gosta que ela saia com uma roupa mais curta porque vão cantá-la, seja o primeiro a não fazer mais isso com outras garotas.E não porque poderia ser a sua namorada, mas porque é mulher e merece ser respeitada.

E quando se trata de cantadas, já virou costumeiro aos jovens ser violento em suas abordagens, com a ideia já instaurada de que ela te deve algo, ou que você tem o direito de obrigá-la a ficar contigo. Até mesmo nas relações mais sérias, existe uma parcela que acha comum estabelecer o respeito através do medo, ameaçando a mulher para que ela fique com você.

Deve-se entender que ela não te deve nada, que pode sim escolher a roupa que quiser para sair, que pode sim ter amigos; que ela não quer ser assediada independente do tamanho de sua roupa ou atitudes, mas sim ser respeitada, sem ser rebaixada pelo que faz com seu próprio corpo.

Se você entende isso mas permite que seus amigos sejam violentos ou degradem a imagem de alguma garota, faça seu papel: ensine-os a pensar de outra forma e a cancelar tal linha de pensamento.

Já passou da hora da mulher poder andar sem medo na rua, ou sair com a roupa que quiser sem ser mal interpretada.

Sobre o autor

Juliano e Pedro Labigalini

Gêmeos idênticos unidos sempre. Apaixonados pelas questões do mundo afora, buscando expressar através de imagens e textos como veem o mundo.

2 Comentários

  • Fiquei maravilhada em ler a coluna de vocês. Como é bom saber que jovens como vocês trazem esta questão do machismo em pauta. Precisamos sim de mudanças, mudanças estas que vêm do meio em que você vive. Mas também a falta de conhecimento leva a tudo isto. Assim a educação é também um elemento essencial. Parabéns pela iniciativa.

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