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Judeus ou budistas? Homens ou mulheres? Negros ou brancos?

Escrito por Regina Pundek

Já assisti duas vezes, em temporadas distintas, a peça A Alma Imoral, uma releitura do livro homônimo do rabino Nilton Bonder. O grande questionamento deste enredo é a possibilidade, ou não, de sermos múltiplos, pouco convictos, ambíguos, divididos, indefinidos, ou melhor, exemplificando e usando as palavras da atriz, Clariece Niskier: judeus e budistas simultaneamente.

Naqueles intensos minutos tive a possibilidade de vivenciar a compreensão de que é a nossa mente quem nos julga, liberta ou condena, que o certo ou o errado nem sempre representam o justo ou o injusto, que o preconceito é ranço social por falta de aceitação às diferenças. A voz da atriz está ainda a ecoar na minha … alma.

Aos meus nove anos, pela primeira vez, percebi com clareza, o que é o preconceito e a rejeição social. Uma coleguinha de classe que acabara de entrar na escola, vinda de outra cidade era impedida de entrar nas brincadeiras do recreio. Perguntei por que e outra colega me respondeu: Porque a mãe dela é desquitada! Lembro de que em casa perguntei aos meus pais o que era “desquitada” e depois “por que não se pode brincar com uma criança filha de mãe desquitada”.

Naquele tempo, em 1967, lá na pequena Florianópolis, os desquitados era uma novidade merecedora de desconsideração. Quanta coisa mudou desde então! Mas quantos sofreram para que assim o fosse.

Aquilo que era então uma aberração, atualmente é comum. Hoje muitas são as crianças em idade escolar que têm pais separados. E a vida segue em frente buscando acalentar desconfortos e aliviar frustrações. Afinal é assim que se cresce!

O que ontem foi preconceito hoje é banal. Os preconceitos de hoje no futuro não existirão. Em São Paulo anualmente acontece a Parada Gay. Cada vez mais existem movimentos em defesa dos direitos dos homosexuais. Cada vez mais encontramos pelas ruas, casais do mesmo gênero explicitando sua afeição. Cada vez mais se declara a necessidade de revermos posturas e valores.

Questionaram-me outro dia se as crianças são preconceituosas. Asseguro-lhes que as crianças são sinceras e ingênuas. Repetem o que vêem e ouvem. Algumas famílias estranham que seus filhos manifestem preconceitos afirmando que eles, os pais, não são preconceituosos.

As crianças são antenas parabólicas; absorvem até mesmo informações subliminares. Eu diria, inclusive, que quando uma mãe aperta mais intensamente a mão de seu filho ao cruzar na calçada com uma pessoa por quem mantém preconceito, faz com que aquela criança reconheça que ali mora a rejeição. E, numa primeira oportunidade ela estará se posicionando contra aquele tipo de pessoa.

Não são necessárias palavras para oferecermos modelos aos nossos filhos. Estudos apontam que as crianças adquirem consciência das diferenças raciais, em média, dos três aos cinco anos, e, com o tempo, passam a atribuir julgamentos aos diferentes grupos, com base na observação do meio em que vivem.

Para terminar, vou lhes contar uma história verdadeira que mostra o tamanho da alma das crianças: Vitória, menina marrom, aos cinco anos, fantasiava que era um cavalo, saltava e pinoteava pelo quintal da escola carregando amigos nas costas. Era preciso que as professoras interrompessem o jogo, ou passava de seus próprios limites físicos, chegando à exaustão.

Alex, loiríssimo, teve paralisia cerebral ao nascer e as sequelas colocaram-no numa cadeira de rodas e num mutismo quase total. Quando os dois se encontravam, seus olhares comungavam. Vitória dizia: “Ele é meu namorado! Quero que ele ande no meu cavalo!” E por alguns minutos, durante aquela cavalgada surreal, seus rostos se inundavam de uma alegria tão intensa que as pessoas ao redor mareavam os olhos. Quantas vezes me senti pequena ao lado deste casal! …

Sobre o autor

Regina Pundek

Escritora, Professora da Educação Infantil, Diretora Pedagógica,Psicopedagoga, Engenheira Civil, Educadora apaixonada pelo respeito ao Ser Humano.

Esposa, mãe, avó. Nascida em Santa Catarina e moradora da Granja Viana há 15 anos.

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