Colunistas Crônica Thomas Hahn

Juro que não sabia!

Escrito por Thomas Hahn

Sou um cara metódico, assim como a maioria dos idosos. Levanto, preparo o café da manhã do casal, e, enquanto o café esquenta, pego o jornal na portaria do condomínio. Tomo meu café, e sento para exercitar os neurônios que ainda me restam, seguindo o conselho dos experts: palavras cruzadas e sudoku.

Numa destas ocasiões, deparei-me com uma palavra vertical que não conseguia resolver. Foi-me necessário completar todas as outras para descobrir que palavra era essa. E lá estava: CONTUBÉRNIO. Sorry, mas isto não é palavra: é palavrão. Não que me surpreendesse, já que sua origem é uma estranha língua falada por aqueles que praticam o direito, totalmente hermética e desprovida de qualquer beleza que a pudesse redimir.

Pior, ainda, foi descobrir que contubérnio é um ato que pratico há 53 anos – e, até aquele dia fatídico, não tinha a menor ideia de que o praticava. E, ainda por cima, induzi minha mulher a praticá-lo também. Mas, com sinceridade, acreditem: eu não sabia. Juro!

Sei muito bem, ninguém precisa me lembrar, que ignorância não é desculpa perante a lei. Tremo só de pensar em ser inquirido por alguém como o juiz Sérgio Moro. “O senhor, então, concorda, em delação sem prêmio, que pratica o contubérnio de forma contumaz?” “Sim, Meritíssima Excelência, sei agora que o pratico; mas, até hoje, era ignorante a esse respeito” “Ignorante ou não, vai para prisão preventiva!”.

Faz três anos, ao completarmos bodas de ouro, recebemos de presente dos nossos amigos da igreja uma linda festa, com música ao vivo e tudo. Imaginem se eles souberem que, na sorrelfa, ela e eu praticávamos o contubérnio? O tamanho da decepção, ou até da raiva? E se pedirem indenização em dobro pelos gastos? Estarei arruinado.

Que bom seria se aquele dia não tivesse acontecido, se o criador de palavras cruzadas não tivesse incluído esta palavra naquela vertical! Eu estaria mais leve, mais disposto; somar este fardo aos meus muitos anos foi uma covardia, agravada pelo fato de que sou um ancião metódico e que continua fazendo suas palavras cruzadas diariamente, sujeitando-me a outra surpresa do mesmo tipo a qualquer hora.

Paciência.

Um abraço,

Thomas Hahn
P.S. Claro que, sendo este um jornal lido pela família, não vou dizer o que é contubérnio. Deixa de ser preguiçoso e procure no dicionário.

 

Sobre o autor

Thomas Hahn

Filósofo de botequim, autor consagrado (por ele mesmo) de um livro, colaborador, com muita honra, desde o primeiro número do Jornal d'aqui e morador da Granja Viana desde 1973.

Blog: www.avistadobanco.wordpress.com

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