Colunistas Crônica Lívia Guimarães

Legados

Escrito por Lívia Guimarães

Tenho pensado em legados.

Talvez porque meus pais já estejam no final de suas vidas e sua partida iminente provoque reflexões.

Também tenho pensado na minha própria pegada no mundo.

Aos 48 anos, tenho me perguntado sobre os vínculos que criei até agora, sobre se sou inspiração para alguém, se aprendi o que poderia pelas oportunidades que tive, e, principalmente, que tipo de mãe tenho sido para minha pequena Laura, de cinco anos.

Não sou um mãe Waldorf, muito pelo contrário. Minha pedagogia pode ir do Piaget ao Pinochet, dependendo da situação. Mas me encantei com a teoria dos Setênios, de Rudolf Steiner, e seu impacto na alma de uma criança.

A teoria fala sobre como nossas vidas são divididas em ciclos, cada um com exatos 7 anos. A teoria é profunda e seria muita pretensão tentar explicá-la. Mas tomo a liberdade de citar parte dela, a que mais me impressionou.

No primeiro setênio, cabe aos pais cuidarem para que a criança seja apresentada a um mundo bonito, dos bons exemplos, da empatia e bondade. Só assim ela crescerá feliz e acreditando que há espaço para mais bondade em nosso mundo. De outra forma, com primeiras experiências e informações negativas, corre-se o risco de se formar um pequeno ser descrente sobre a vida e, portanto, alguém infeliz e com menos chances de fazer a diferença.

Nos primeiros anos de vida, o mal deve ser apresentado à criança, lógico, mas de forma palatável. É aí que as estórias e contos tradicionais têm importante papel: apresentar o bem e o mal de forma fantástica, em claros contrapontos e com o bem prevalecendo no final.

O mundo mudou? As crianças de hoje aceleram no aprendizado. Nem todas as crianças podem ser poupadas por crescerem em ambientes insalubres. Sim, mas o conceito continua me agradando muito. E tento aplicá-lo, na medida do possível.

Logicamente, há sempre aquelas almas evoluídas que sobrevivem a qualquer má influência, resistindo às vicissitudes da vida. E, muitas vezes, servindo de exemplo para os menos inspirados. Mas essas são exceção, convenhamos.

Voltando ao primeiro setênio, para mim, a teoria faz todo sentido. Por pura intuição de mãe sempre acreditei que é pelos olhos dos pais e, desculpem os pais, mas principalmente pelos olhos da mãe, que a criança enxerga o mundo nos primeiros anos.

Tenho pensado nisso tudo, no meu legado para os primeiros anos da Laura. Sobre que tipo de mundo tenho apresentado a ela.

Sou uma pessoa entusiasmada, em geral, embora como todo mundo tenha meus picos e vales de humor. Nem sempre consigo ver o mundo em sua tonalidade mais vívida. Mas tenho uma vantagem a meu favor, consigo realmente encontrar prazer nas pequenas coisas. No pão na chapa da padaria, no último capítulo da série, na pizza de domingo com meu marido e minha filha, nas conversas com minha irmã, na apresentação bem sucedida a um cliente. E assim vou levando a vida, da forma mais leve possível.

Todos os dias, pela manhã, levo minha filha à escola. Por uns vinte minutos, percorremos um lindo caminho, repleto de árvores e flores, às vezes com esquilos e até galinhas d´angola. Um grande privilégio que ela não tem a condição de avaliar por falta de parâmetros. Mas que eu, criada em São Paulo, subindo e descendo a Avenida Rebouças, sei bem o que significa.

Um dia me ocorreu que talvez perceber a beleza e o pequeno prazer também seja uma questão de aprendizado. Algo passado de mãe para filha, e não somente uma questão de personalidade. Fiz um teste.

Por uns dias, passei a conversar com ela sobre como achava aquilo tudo uma beleza, o caminho da escola. Indo para a escola contava sobre como ver aquelas flores me fazia feliz.

Semanas se passaram e ela não acusava o golpe. Até que um dia, fazendo o mesmo percurso ela me disse:
– Olha, mãe! Como é bonito o caminho da minha escola. Cheio de árvores e flores. Que sorte a nossa, não é?

Aquilo foi demais! E, ao mesmo tempo, a confirmação da enorme responsabilidade que temos sobre a alma de uma criança.

Na hora, fiquei imaginando o tipo de imprint que comentários opostos podem ter sobre uma criança tão pequena. Reclamações cotidianas sobre a rotina, o excesso de crítica sobre outras pessoas, o estar constantemente entediada. Isso certamente contamina uma alma.

Aos poucos vão surgindo outras referências na vida de um filho, que também servirão de fonte de informação e inspiração. Mas uma criança nutrida com uma visão bonita e otimista do mundo sempre será capaz de seguir em frente, rumo à felicidade. Vocês não acham?

Sobre o autor

Lívia Guimarães

Proprietária da Ponto Luz, Consultoria de Marketing.

Escreve no seu blog maletaamarela.com.br, por puro prazer, textos sobre o cotidiano através de um olhar sincero e divertido.

Blog: maletaamarela.com.br

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