Colunistas Deborah Brum Literatura

Livro: mi pequeño, de Germano Zullo, Albertine

Escrito por Deborah Brum

Por Deborah Brum e Liliana Pardini

Um dos prazeres de se viajar para o mesmo lugar é a intimidade estabelecida com a cidade. A curiosidade frenética e as obrigações de um turista são apaziguadas pela tranquilidade de já se sentir pertencente, mesmo sendo um imigrante. De um modo geral, as pessoas gostam de viajar e, nos preparativos, alegram-se. Se para alguns, o desconhecido é o inexplorado, para mim, entretanto, é o obscuro.

Nunca é fácil fazer as malas.

Para comemorarmos os vinte anos de casados, embarcamos em maio para Buenos Aires. Poucos dias cabem numa mala pequena quando tudo é íntimo demais. Não posso mais com o peso das superficialidades. Na bolsa, um livro de um argentino, traduzido para o português e recentemente publicado. Com uma amiga muito querida, aprendi a carregar um autor originário dos países estrangeiros onde vou, porque, através dos livros, a gente se apropria mais dos lugares, do povo, dos costumes. Desde então, antes de embarcar, busco no livro um acolhimento, uma espécie de permissão para não ser tão estrangeira em outro lugar, quando chegar ao destino.

Naquele dia, fazia um frio intenso em São Paulo, e ninguém desconfiava que o Brasil paralisaria dias depois com a greve dos caminhoneiros. Os olhares dos viajantes na fila são estranhos enquanto aguardam os procedimentos para o embarque. Alguns, eufóricos demais, parecem não conter o corpo entre as fitas que formam o caminho obrigatório até o guichê de controle da polícia federal. Outros, acostumados a viagens, olham para o chão ou buscam uma saída do tédio nos seus celulares. Pessoas como eu, não adaptadas a zonas fronteiriças, apoiam-se no ombro do amigo ou no do marido. Também há a chance de tirar o livro da bolsa e abri-lo na página marcada. Estamos a poucos metros do guichê, longe dos filhos, da casa, e juntos há vinte anos. E é sempre assim: gosto de viajar, porém não suporto o deslocamento da ida e da volta.

Faz frio em Buenos Aires. Mas o sol de maio esquenta e deixa as pessoas caminharem pelas ruas planas da cidade. Devidamente instalada, isso só ocorre depois que largo a mala no hotel, sinto-me livre para sair sem destino, ou melhor, sem destino para ir, mas tendo um para voltar, é quando sou livre.

Não sabíamos que dia 25 de maio é a comemoração da Independência da Argentina. Havíamos feito uma programação para aquele dia, mas, devido ao feriado nacional, a cidade se transforma e o povo sai às ruas. Para nossa sorte, San Telmo, um dos nossos lugares prediletos, estava em festa. Os imprevistos nos tornam menos estrangeiros, pois, lidando com o inesperado, viramos outros viajantes e nos entregamos a novas experiências.

O dia estava lindo para nós e para os argentinos.

Em San Telmo, caminhamos na feira de artesanato, conversamos com os artesãos, relembramos nossa primeira ida à cidade, falamos de nossas conquistas, da alegria de podermos compartilhar nossas vidas em uma. Ele comprou uma flauta peruana, mais um instrumento entre tantos violões, percussões, viola, bateria; não seria a flauta um problema depois de 20 anos.

Fomos almoçar no Mercado de San Telmo, era preciso, obrigatório comer Locro, uma comida típica argentina feita com carnes e milho, e tomar um Malbec. Antes do Locro, uma empanada. Os portenhos comemoram a independência resgatando as tradições e sustentam, mesmo numa crise, uma identidade nacional através do conhecimento de sua história.

No final da tarde, resolvo caminhar pelas ruas do bairro. Descubro uma livraria infantil, mais uma entre tantas livrarias e sebos especiais da cidade. Folheio alguns livros, um, em especial, me chama a atenção: “ mi pequeño”, de Germano Zullo Albertine. Capa simples, onde há uma mulher desenhada por traços finos e limpos. Suas mãos estão sobre seu coração e ela olha para elas com ternura. Associando o nome à imagem, desconfio do tema. Será maternidade? Se for sobre isso, eu o abrirei e posso chorar bem aqui, nesta livraria de San Telmo, pensei enquanto segurava o livro.

Enquanto almoçávamos, eu e o meu marido falávamos sobre nossas vidas, sobre os filhos e como o tempo passa rápido, sobretudo, para as mães. Ainda no almoço, eu disse que entendia o percurso natural dos filhos, como era bom ver nossos filhos trilharem os seus caminhos, mas eu sentia saudades, muitas saudades de tê-los comigo a qualquer dia, todos os dias, em todas as horas. Eles cresceram, Deborah. Está tudo bem, ele havia me dito há pouco.

Com o livro em mãos, eu sentei porque sabia, intuitivamente, o que ele provocaria em mim. Nas ilustrações primorosas não há cor e os traços pretos destacam-se nos espaços em branco das folhas. As palavras escritas são poucas, mas, juntamente com as ilustrações, fazem com que o texto seja arrebatador. Chorei, liguei para uma grande amiga da escrita, ela iria me entender. Com pouca bateria, eu tentava compreender, falando com ela, como a simplicidade de um livro pode provocar uma catarse em Buenos Aires, em San Telmo, no Dia da Independência, numa livraria desconhecida enquanto comemorávamos 20 anos de casados.

Está me entendendo, Lili? – perguntei, antes da bateria acabar. A história do livro é a história de todas as mães e, diferente de um espelho, reflete o futuro no presente da leitura: a hora da despedida. Você me entende, Lili?

Liliana Pardini

Deborah Brum

É o ciclo, Dé. É para o que somos. Um elo, um entre no meio do passado e futuro. Momento que funda e passa. Afinal, a vida é só uma viagem.

 

Confira aqui a matéria sobre o livro, ainda não publicado no Brasil.

Sobre o autor

Deborah Brum

Artista Plástica com pós graduação em Arte Integrativa.
Atuou na área de Arte Educação Bienal. Hoje dedica-se às suas grandes paixões: filhos e a literatura. Ministra oficinas infantis e juvenis e é mediadora do Clube do Livro da Granja Viana.

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