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Livros, roteiros e três bebês

Escrito por Redação

Ser mãe não era “o meu maior sonho” da vida de Nanna de Castro, 50 anos, escritora, roteirista e dramaturga. Achava legal. Já havia até conversado na terapia a possibilidade de simplesmente, não ter filhos. Mas quando o casamento rolou, já pelos 30 e poucos anos, a pauta inevitavelmente, foi recolocada. A pressão do relógio biológico foi levada em conta. E ela e seu marido resolveram então, que sim, seriam pais. Abriram os trabalhos, mas a gravidez não chegava.

Até que no meio do caminho, descobriram uma inesperada questão de fertilidade. Procuraram uma clínica especializada em reprodução humana e ela começou o tratamento.

“Foi um processo muito desgastante, porque envolve muitas questões, procedimentos, é caríssimo, você recebe uma bomba de hormônios, o que mexe muito emocionalmente e ainda assim, existe a possibilidade de não dar certo”, relata a roteirista.

Na primeira vez, não aconteceu, mas na segunda tentativa sim. Ela já nem tinha esperanças mais e seria o último investimento, tanto emocional como financeiro. Mas quando foi conferir o resultado do exame por telefone com a clínica, diante dos índices e taxas que só os médicos entendem, a enfermeira sentenciou quando ouviu os “números”: “você está muito grávida”.

Sim, de três embriões.

Ao ver no ultrassom, brincou que eram três bolinhas de luz. Na hora, não caiu a ficha do que estava por vir. Nanna foi caminhar no parque no mesmo dia, viajou, continuou a vida. E demorou para cair, como acontece com a maioria das mulheres quando a barriga ainda não se pronunciou, nem os sintomas (Nanna conta que nunca teve um enjoo). “Foi uma gravidez cercada de cuidados, eu vivia fazendo exames de monitoramento, me sentia quase uma cobaia de laboratório de tantos procedimentos”, brinca.

No meio da gestação, o médico disse que um dos bebês poderia portar síndrome de Down. Uma possibilidade nas fertilizações in vitro. Fariam um exame de translucência nucal para ter certeza. Nanna, assustada com a notícia, conversou com o bebê. Com ele, com Deus e o universo. E disse que estaria tudo bem se ele viesse assim. Seria amado.

No dia seguinte, para surpresa de todos, o bebê estava com todos os padrões de normalidade esperados no exame. A gravidez foi adiante. Nasceram com oito meses, um deles teve que ficar na UTI neonatal. Na correria entre hospital e dois recém-nascidos em casa, a escritora conta que só se deu conta mesmo quando todos ficaram juntos na mesma cama. Olhou e viu que tinha três bebês, três filhos para criar. A ficha, finalmente, caiu.

“Foi como se de repente, eu tivesse caído de 20 andares. Liguei para minha irmã e disse que eu era louca, uma irresponsável, como daria conta de cuidar de três crianças, sozinha, com a família longe? ”

Um par de peitos, três bebês, vida profissional para manter e Nanna desde o início se conscientizou que ela seria a mãe que poderia ser, dentro de seus limites. Dois meses depois, já estava trabalhando. Não teve o tal do resguardo, licença maternidade, nada. Seu recurso: conversar com os filhos desde o colo com muita paciência. Pedia ajuda em momentos difíceis, apostando em uma relação honesta e transparente. Lembra que durante a gestão clamava bem-humorada: “Deus, não mande crianças, mande reforços”.

Doze anos depois, avalia. “Eles são reforços. Meus filhos são maduros, compreensivos, companheiros. Sinto que são muito mais poderosos do que eu, mais inteligentes, mais rápidos, independentes, sensíveis”, conta emocionada. Acredita que a maternidade é uma função que exerce com o mesmo carinho, a mesma dedicação, honestidade e transparência que qualquer outra faceta de sua vida, de mulher, profissional, artista. Acredita que esse é o caminho mais saudável para todos.

“Quando preciso estar só, eu e meus personagens, minha criação, ou mesmo porque não estou bem, peço a compreensão deles e dá tudo certo”. Um desses momentos está no texto “Meus filhos sobre mim”, de seu livro, “O Céu não é um lugar”, recém-lançado.

“(…) Era raro, mas acontecia de não caber mais nada nela, muito menos três crianças e seu oceano de demandas. Mamãe estava sempre lá nas necessidades, na dor, no medo, no colchão molhado de madrugada, segundos depois do tombo, mas pedia licença e deixava a mesa do jantar se considerasse que estávamos sobrepujando o seu limite para o desagradável(…)

Nanna e família

Você poderia imaginar que Nanna, por tudo o que viveu para engravidar, seria uma mãe superprotetora. Mas longe disso vai sua ideia de maternidade. Não acha legal o estereótipo de “mãe Doriana”, aquela que não mede esforços, abre mão da carreira, da vida amorosa em função dos filhos. “Porque a maternidade é uma fase. Depois os filhos vão embora, passam. Olhe bastante no espelho e diga, ele é meu filho, mas isso um dia vai embora. E se Deus quiser! “. Porque será saudável para todos.

Para a escritora, qualquer mulher que aguarda uma premiação pela sua dedicação como mãe, guarda dentro dela uma cobrança. “Isso é uma roubada. Ser mãe é bom, mas é preciso estar realizada como mulher, como profissional. E se você não fez o que gostaria, vai viver um vazio imenso na sua vida. ”

Então mães… Vamos deixar um pouco a santidade de lado para sermos, simplesmente, humanas? Seus filhos, agradecerão. E você também.

Por Fabíola Lago, jornalista, esposa, amante, feminista,  mãe do Theo, 14 e do Caio, 12 e colaboradora do Jornal d’aqui.     

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