Cinema Colunistas Maria Amélia Cupertino

Medo à antiga, ou porque assistir Hitchcock

Na minha relação com adolescentes e jovens sempre me espanto como a oferta de séries e filmes atuais vai moldando o público, através de certa maneira de narrar, uma estética e um ritmo específico, que por vezes impedem as novas gerações de assistir e gostar de clássicos do cinema. Entretanto, ao assistir “O Iluminado” com um grupo de jovens, uma mudança de atitude me chamou a atenção: do inicial desprezo por um filme lento e sem tanta violência e ação, eles perceberam que há outras formas, até mais eficientes, de criar clima no cinema.

Lentidão, em filmes de suspense, não é um problema. Afinal a palavra “suspense” é usada na linguagem comum como sinônimo de demorar a contar algo, esticar o momento da espera, manter no ar a coisa, suspensa. A graça só acaba quando essa espera permite que o espectador relaxe, mas se o diretor consegue fazer com que fiquemos quase sem respirar enquanto a cena não acaba, aí realmente ele é bom.
Hitchcock sabe muito bem manipular nossa ansiedade, usando elementos sutis e extremamente bem construídos.

Em primeiro lugar, pela imagem: o uso de tomadas à distância que vão se aproximando, cantos sombreados, detalhes insólitos na paisagem. Em “Os pássaros”, a repetição de cenas das aves nos fios vai nos deixando inquietos, e acreditem, essa inquietação dura muito, sempre que vejo pássaros no fio me dá um certo arrepio. Outro truque: a maneira em que a câmara entra na casa do vizinho em “Janela Indiscreta” nos põe na sensação de que nós estamos espionando, e, portanto, sofremos na pele o medo de sermos descobertos, flagrados. Aliás, um velho truque que sempre dá certo: fazer com que o espectador veja pela lente do personagem, se identifique. Experimente sentir vertigem (com direito até a enjôo) nas cenas em que “Scottie”, o personagem central de “Um corpo que cai”, que sofre de acrofobia (medo de altura), olha para baixo na escadaria da torre do campanário.

Bom, mas essa capacidade de nos impactar não se apoia só na imagem, mas também no som, na genial música de Bernard Hermann, que parece estar colada na imagem e que nos faz, cada vez mais, tensionar cada músculo do corpo.

Sutil também é a forma em que monstros como James Stewart e Grace Kelly criam os personagens, através de expressões faciais, olhares. Nesse sentido, assista “O Homem Errado” e perceba como Henry Fonda consegue se transformar fisicamente em um ser imóvel, preso em uma armadilha do destino, vítima de um erro judicial, transformação que se dá praticamente através de seu olhar, triste e transparente.

Percebem que eu tenho um problema? Não dá para escrever um texto sobre Hitchcock e estragar tudo falando sobre as tramas, já que um resumo delas não transmite sua maestria e pode estragar a surpresa. A única coisa que posso dizer é que Hitchcock combina elementos como a loucura, o humor, os papéis de vítima e assassino de forma a levar o espectador a rir, ter medo, se identificar ou não, levar sustos ou conseguir adivinhar um pouquinho antes, ou até mesmo sofrer sabendo de antemão quem é o assassino.

Portanto só há uma solução para acabar esse texto: sugerir que você pare de ler, escolha um dos filmes (na Netflix estão disponíveis “Janela Indiscreta” , “Um corpo que cai” e “Psicose”), consiga uma companhia para poder apertar a mão nos momentos de aflição e se deleite em sentir medo.

Sobre o autor

Maria Amélia Cupertino

Formada em Ciências Sociais, com mestrado em Educação.
Foi professora de Ensino Fundamental, Médio e Superior. Trabalhou como pesquisadora na UNICAMP na área de políticas públicas voltadas a crianças e adolescentes. Trabalhou na Fundação Abrinq na análise e financiamento de projetos para melhoria do ensino público (Programa Crer para Ver). Desde 1998 trabalha como Coordenadora no Colégio Viver. Além da paixão por educação, é cinéfila de carteirinha, tendo integrado, na faculdade, o Cineclube da FFLCH da USP.

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