Colunistas Duplamente Juliano e Pedro Labigalini

Muros e Egos

Já é de conhecimento público que eventos como a eleição de Trump, o Brexit e a crescente aversão aos refugiados pelo mundo não são fenômenos aleatórios, e sim indícios de uma nova fase. Onde a globalização não é vista mais como necessária, muros são erguidos junto ao ego e ao nacionalismo.

Condomínios, criados como metonímia deste processo, antes apresentavam uma segurança mais simples que adiante foi substituída por pseudoviaturas. O medo e outros fatores tem causado um movimento contrário ao que surgiu após a guerra fria. Na década de 80, o mundo caminhava para o rompimento de fronteiras comerciais e barreiras na comunicação. Mas a retração decorrente desse sentimento reflete uma nova tendência de nos fecharmos.

A tentativa constante de se alinhar a uma ideia que traga a sensação de unidade, tal qual o nacionalismo, é prova deste processo de restrição. Este cresce conforme o descontentamento com a política, abrindo a porta para discursos ultrarreacionários. Mas para além da teoria, os condomínios são parte deste processo de estreitamento do contato com o diferente. O privado se torna a salvação para um serviço público que não satisfaz. Fechamo-nos às ruas sem saída, evitando qualquer possível interação com o mundo afora. As relações se restringem ao mundo dentro das bolhas privadas. Saímos de um condomínio fechado, dentro de um carro fechado, para trabalhar em um local fechado. Fechado ao mundo de qualquer outro.

A desinformação é marca desta nova fase. Conforme este processo de restrição avança, passamos a ler mais sobre o que concordamos e nos distanciar ainda mais daquilo que não conhecemos. As redes sociais contribuem com o processo, na medida que usam algoritmos para saber o que gostamos ou não, e a partir daí seleciona o que nos mostra. Isto apenas fortalece a polarização, o maniqueísmo. A “pós-verdade”, selecionada como a palavra do ano pela Oxford, descreve perfeitamente este caminho: fatos objetivos tem menos importância que convicções pessoais. Isto é, o emocional e o moralmente correto se sobrepõem ao racional e ao ético.

Difícil dizer se os ocorridos políticos são reflexo desta tendência de nos fecharmos cada vez mais, ou se esta tendência decorre das mudanças políticas. O que sei pode notar que vem adiante, é uma sociedade que não valoriza mais os fatos, o concreto e o científico e se fecha ao conhecimento prévio, pessoal e insustentável.

Através dos vidros, também vemos o universo para além dos limites de nossos feudos. Um horizonte dito como perigoso. Mas o que será maior? O perigo ou o medo? É papel dos jovens descobrir, mesmo que contra o vento.

Sobre o autor

Juliano e Pedro Labigalini

Gêmeos idênticos unidos sempre. Apaixonados pelas questões do mundo afora, buscando expressar através de imagens e textos como veem o mundo.

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