Colunistas Educação Maria Amélia Cupertino

Não podemos ter tudo, ou a arte da escolha.

Esse é meu primeiro texto sobre Educação para essa coluna e eu passei horas pensando em que assunto escolher. E acabei resolvendo falar sobre as escolhas.

Não podemos ter tudo. Um ditado clichê, mas verdadeiro. Portanto, temos que decidir continuamente o que deixamos de lado ou para trás, sob o risco de não fazer nada direito ou de deixar que o acaso decida por nós.

Minha mãe, quando eu tive meu primeiro filho e estava de cabelo em pé, querendo dar conta de educá-lo da melhor maneira possível, me aconselhou a escolher apenas três coisas para prestar atenção por vez. E esse conselho passei para muitas mães de alunos, que me relataram ser um ótimo antídoto para a ansiedade materna.

Na minha tarefa como educadora, também uso em parte esse princípio, adequando os muitos objetivos da escola para cada indivíduo em particular, estabelecendo metas para cada um, de acordo com seu potencial e necessidade. Há alguns que precisam mais que tudo aprender a conviver, a outros falta persistência, outros precisam aguçar a curiosidade. E nessa escolha procuro sempre incluir aspectos que dizem respeito à falta e aspectos que dizem respeito à abundância, ao talento, à inclinação.

Outro dia uma mãe me disse que nós ensinávamos os estudantes a escolher. Como? Antes de mais nada, apostando no autoconhecimento, na clareza de inclinações, desejos, limitações. Para que eu escolha, preciso saber quem sou. Depois, deixando-os escolher, pois esse é um aprendizado que só se faz na prática. Nessa prática, muitas vezes temos que apresentar um cardápio de escolhas, pois eles nem sabem de algumas alternativas. Por último, lembramos que escolhas tem que ser revistas, reavaliadas.

Correndo o risco de cansá-los quero, ao final, falar um pouco sobre minhas atuais escolhas na convivência com os mais jovens, principalmente os adolescentes. Dada a forma de vida atual, tenho sentido muita necessidade de proporcionar momentos de silêncio, de calma, de introspecção, de interromper um ritmo frenético e pausar a atividade por alguns minutos. Eles com eles mesmos. Mas também tenho sentido a urgência de proporcionar certo tipo de convívio, mais fraterno, com maior compreensão e empatia e menos julgamento, um espaço seguro para que eles possam ser eles mesmos, mas sempre se importando com os sentimentos e direitos dos outros, e contando com o apoio sincero de pares e de adultos. Será que estou querendo demais ou dá para encaixar esse sonho na regra das três escolhas?

Sobre o autor

Maria Amélia Cupertino

Formada em Ciências Sociais, com mestrado em Educação.
Foi professora de Ensino Fundamental, Médio e Superior. Trabalhou como pesquisadora na UNICAMP na área de políticas públicas voltadas a crianças e adolescentes. Trabalhou na Fundação Abrinq na análise e financiamento de projetos para melhoria do ensino público (Programa Crer para Ver). Desde 1998 trabalha como Coordenadora no Colégio Viver. Além da paixão por educação, é cinéfila de carteirinha, tendo integrado, na faculdade, o Cineclube da FFLCH da USP.

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