Colunistas Crônica Thomas Hahn

Não podia ser ela

Escrito por Thomas Hahn

Não podia ser ela a última a morrer.

O filme era “The Day After”. Produzido em plena guerra fria, baseado no livro homônimo de Nevil Shute, contava a história da morte da humanidade após uma guerra nuclear entre os EUA e a União Soviética, fruto da nuvem de radiação que se espalhou pelo mundo. A última a morrer foi Ava Gardner, possivelmente a atriz mais linda que já apareceu nas telas de Hollywood. Foi um golpe duro.

Passei boa parte da minha vida adulta sob o temor de uma guerra nuclear. A corrida armamentista entre as duas superpotências era tal que as chances estatísticas eram grandes de que um ou outro iniciaria a guerra final, a guerra que realmente acabaria com todas as guerras, uma vez que não sobraria ninguém para guerrear. Para piorar as coisas, em certo momento um presidente americano, fã do Kentucky Bourbon, contracenava com um bebedor gargantuano de vodca. Minha chance de desfrutar a velhice parecia ínfima.

Mas o mundo gira, a Lusitana roda, e não houve o tal aperto do botão vermelho. Meus filhos cresceram, meus cabelos pratearam, a União Soviética já era, e o espectro da guerra nuclear ficou distante. Pelo menos, até recentemente. Pois não é que o ditador de plantão da Coréia do Norte, cruel e sanguinário para com seus parentes e amigos, está fazendo o possível para nos arrastar de volta para o mesmo filme, para a hecatombe final, sem que tenhamos sequer Ava Gardner para morrer no fim do filme?

Do outro lado do ringue temos um presidente americano que não inspira confiança em ninguém, que desdiz hoje o que disse hoje, que não fala coisa com coisa, ao qual está confiada a maleta com o botão vermelho que provoca cócegas em seu dedo indicador. A situação mais parece o roteiro de um filme chamado “The Day After – O Retorno”.

As lideranças mundiais não parecem ter uma resposta para o problema criado; se continuar assim o bonde vai sair dos trilhos e despencar pelo abismo. Mas não se desesperem: creio ter encontrado a solução. Ela passa por um fenômeno capilar: vocês já notaram que tanto o líder supremo coreano-do-norte e seu colega norte-americano tem uma obcessão pelos seus cabelos? Trump busca sua inspiração nos traçados de Niemeyer e no Museu do Futuro. Kim Jong-Um deixa claro que tem uma queda pela natureza, tosando o entorno do seu cocoruto e deixando seus cabelos crescer verticalmente, buscando o sol. Os dois, juntos, consomem 10% da produção mundial de gel.

Pois bem, crie-se um reality show sobre corte de cabelos; arme-se a jogada de tal maneira que os dois cheguem à final; defina-se, ainda, que um júri insuspeito, formado por cidadãos de países sem o menor interesse quanto aos destinos do mundo, declare o empate, concedendo aos dois uma peruca masculina de ouro, cravejada de diamantes e rubis. O show da entrega de prêmios será visto obrigatoriamente em todos os países do mundo. A montagem do show e a garantia do desfecho feliz ficarão a cargo de brasileiros, já que no que toca a mutretas somos hors concours.

Tem um cantinho na minha estante que está vago, à espera do Nobel da Paz.

Sobre o autor

Thomas Hahn

Filósofo de botequim, autor consagrado (por ele mesmo) de um livro, colaborador, com muita honra, desde o primeiro número do Jornal d'aqui e morador da Granja Viana desde 1973.

Blog: www.avistadobanco.wordpress.com

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