Colunistas Crônica Jany Vargas

Não sou essa, nem aquela!

Escrito por Jany Vargas

Estou numa festa. Muitos casais jovens com filhos pequenos. Duas senhoras idosas: Uma italiana que não conversa com ninguém e outra que às vezes fala em armênio alguma coisa que não entendo. Comigo mais três amigas. Nós todas com idade para ser avós.

Nesta festa não sou a bela moça alemã que não come carboidrato porque tem pré diabete. Não sou minha amiga que se interessa por namorar mulheres. Não sou a senhora idosa italiana que não conversa com ninguém, não sou a simpática dona da casa que tem paciência com o marido que está fazendo diferente do que ela está pedindo. Não sou esse marido, nem ao menos aquele outro que é gentil com todo mundo. O carro dele, um jipe importado que ficou com a luz interna acesa, não é meu. Não sou nenhuma das crianças pequenas que brincam por ali. Elas não são meus filhos e aguçam a saudade que sinto dos meus, que agora estão crescidos e estão longe.

Este lugar não é o meu. A lagoa que tem no fim da rua também não é minha. Meu lugar está há duas horas de taxi daqui, mais duas horas de avião, mais duas horas de ônibus e metrô. Não vivo aqui onde a lua cheia nasce no mar, que é também onde morre o sol todos os dias. Não falo português com sotaque como fala a moça que usa biquini o tempo todo. Não sou a senhora idosa que acabou de gritar. Nem o pequeno menino de quatro anos que foi acusado por ela de querer mexer na sua bolsa. Não sou essa bolsa, nem as lágrimas que saltam dos olhos do menino, que soluça sem parar de susto e repete que não ia mexer na bolsa. Não sou a mãe dele que está longe. Nem o colo que ele tanto precisa.

Sou essa que observa tudo, esse receptáculo de tantas experiências e conhecimentos que venho coletando ao longo da vida. Quando eu for embora, quando você for, onde ficará tudo isso que foi coletado? Quem sabe ficará voando por aí, armazenado numa caixa invisível até ser acessado novamente por um outro eu?

Meu lugar não é o melhor. Ficaria com a beleza da alemã e com os carboidratos também. Meus filhos ainda seriam pequenos e estariam junto comigo. Teria a lagoa no fundo da rua e o mar para nascer a lua. Não gritaria com nenhum menino e nem me importaria com minha bolsa.

Eu preferia estar começando a vida novamente num lugar como esse? Jogo de xadrez onde vamos mudando de lugar. O garçom prefere ser o rapaz que chegou no carrão que ganhou de mão beijada?

Aprendo que Rudolf Steiner disse que a lua é morada dos anjos e é o primeiro lugar para onde vamos após morrer.

Essa festa, essa viagem chegou ao fim. Estou em outro eterno presente! Meus filhos continuam longe mas eu já os encontrei várias vezes e pude abraçá-los. O jogo continua… Ainda estou nele e os anjos continuam morando na lua!

Foto Carnaval SP/ 2017 : Julia Vargas

Sobre o autor

Jany Vargas

Transita no universo das Danças Circulares e é escritora. Escreve para levar ideias daqui para ali. Para contar histórias, falar do seu tempo, participar do diálogo, contribuir.

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