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Nepal – O vale de Katmandu

Escrito por Beto Dixo

 

Kovalan

Kovalan

 

Foi Toni Hagen (1912-2003), um geólogo suíço, quem revelou o Nepal para o Ocidente, tendo conhecido o país em 1950, participando depois de várias expedições científicas a serviço do governo nepalês e das Nações Unidas. Foi autor de vários documentários e de um livro fundamental, intitulado Nepal, editado na Suíça em 1961, onde afirmava lá ter encontrado a lendária Shangri-La, a terra encantada nos Himalaias, imortalizada por James Hilton em Horizonte Perdido. Voltando ao país em 1968 chocou-se com as transformações que observou, sobretudo na capital, Katmandu: praças destruídas, construções de péssimo gosto e, sobretudo, uma multidão de hippies e viciados em haxixe, caminhando sem rumo pelas ruas. Para ele, começava a desaparecer a terra dos pagodes imemoriais e de outras relíquias que testemunhavam uma cultura e civilização muito antigas.

Eu visitei o Nepal 13 anos depois, em fevereiro de 1981, e achei exagerados os comentários negativos do Dr. Hagen. OK, havia ainda hippies circulando pelas praças, alguns muito jovens, outros veteranos, aquela turma que parece estar voltando a pé de Woodstock. Cheguei diretamente de Benares, na Índia, depois de quase 40 dias viajando por aquele país, e a visão de Katmandu ainda era de perder o folego. Sua fundação data de 723 a.C., fica a 1.400 metros de altitude, cercada de montanhas, num cenário excepcional. Era conhecida antigamente como “a Florença da Ásia” , mas parece ainda uma cidade medieval.
Na Durbar Square começa de fato a cidade velha, que abriga os principais palácios, monastérios e templos, com uma arquitetura que impressiona pela riqueza da decoração. É delicioso passear pelas ruelas que circundam a praça, observando as belas fachadas das casas e o colorido alegre dos apressados transeuntes.

O vale de Katmandu também merece ser visitado; estende-se em torno da capital por uns 30 quilômetros e pode-se percorrê-lo pela Ring Road, a estrada mais bonita do Nepal, que permite chegar facilmente a cidadezinhas de sonho, de nomes difíceis de pronunciar: Patan, Bhadgaon, Swayambunath, Boudahnath, Pashupatinath…
Patan fica a apenas 5 km da capital, é a “cidade da beleza” ou a cidade “dos mil tetos dourados”; chama à atenção as inúmeras representações do Buda.
Bhadgaon é ainda mais bonita, com suas vielas animadas e casas com belos ornamentos em madeira. É a mais medieval das cidades do vale, reduto de artesãos fantásticos, escultores, ceramistas e tecelões. É notável o contraste entre as roupas escuras dos moradores, na maioria camponeses, e a explosão de cores nos tapetes, legumes e verduras vendidos pelas calçadas.

Boudahnath

Boudahnath

Boudahnath é o principal centro do budismo nepalês e domínio do mundo tibetano, por excelência; local de peregrinação, atrai milhares de seguidores do Buda, que vem de todos os recantos da Ásia. Tem uma feira de rua animada e uma grande população de refugiados do Tibete.
Já Pashupatinath é a Benares do Nepal, centro de peregrinação para o hinduísmo; lá se adora Shiva, sob a forma de Pashu Pati. O rio Bagmati, que corta a cidade, é sagrado como o Ganges, do qual é afluente. Mas, diferentemente do rio indiano, que é caudaloso, tem só meio metro de profundidade e o filete de água corre entre lama e lixo. Nada disso impede os hindus religiosos de virem para suas margens cremar seus mortos e a visão dos corpos calcinados, tão próximos de quem passa por alí, pode chocar.
Reservei os três últimos dias de viagem para visitar os Himalaias, mas isso é assunto para a próxima crônica.Nepal –

Dicas
Essa dica vale pra qualquer viagem, principalmente pelo oriente: esqueça a pressa paulistana e, sobretudo, seu relativo padrão de eficiência para qualquer tipo de serviço, seja público (transporte, comunicações, etc.) ou privado (hotéis, bares, restaurantes, etc.) Caso contrário, a irritação e a frustração podem liquidar com o prazer de conhecer o diferente.
O melhor jeito de percorrer o vale de Katmandu é de bicicleta, facilmente alugável. As estradas são movimentadas, mas as bikes são respeitadas e as distancias são pequenas entre as cidades do vale e a capital.
Australianos são, na maioria, ótimos viajantes e estão por todo o oriente. São simpáticos, comunicativos, joviais e generosos com os palpites que costumam dar para os outros turistas. Nos hotéis menos estrelados, chegam a colocar no mural algumas informações valiosas sobre serviços e locais descolados. Vale a pena arriscar nas dicas dos “aussies”.

 

Sobre o autor

Beto Dixo

Consultor aposentado, viajante ainda na ativa, apaixonado por literatura e cinema, curioso por coisas e pessoas.

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