Arte Colunistas Solange Viana

O alquimista das artes contemporâneas

Escrito por Solange Viana

“Sempre gostei da bagunça. Não de ordem nem desordem.
Bagunça. O que tenho à mão vou mexendo até perder, para depois achar de novo.
A
chando o que perdi acho o novo de novo, reencontro o novo no velho – é como a luz, a velha luz, descansada e sempre nova de novo”.
Tunga ( 1952/2016)

TungaNo último dia 6 de junho, perdemos um grande artista: Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão, mais conhecido como Tunga. Refleti muito até começar a escrever este texto, pois Tunga não foi um artista qualquer. Ele era um alquimista, no termo mais genuíno da palavra. Um artista completo: cineasta, performer, pintor, escultor, desenhista e poeta. Só para citar apenas algumas das suas facetas. Morreu jovem. Em plena atividade artística, deixando uma obra forte e contestadora. Aos 64 anos, parte um dos artistas contemporâneos mais consagrados da história brasileira. Uma Gisele das artes plásticas. Não poderia deixar de escrever sobre ele.

gemeas

Xifópagas capilares

A arte contemporânea é vista de diversas maneiras, inclusive, como enganadora, pois não é fácil de ser digerida. E Tunga não era fácil, simples. Ele era complexo. Tunga causava. Suas exposições eram sempre performáticas. Uma, dentre milhares, das mais comentadas e marcantes foi “xifópagas capilares”, gêmeas que circulavam “grudadas” pelas vastas cabeleiras, durante a exposição performática. Remetem ao quadro ‘As Gêmeas’ do Guignard que, por sua vez, se inspirou na mãe e na tia que eram gêmeas, o que sempre lhe causou inspirações, pois “brincava” que tinha duas mães.

urina

Cooking Crystals, instalação arranjada como emaranhados de cristais e frascos de urina suspensos por redes e fios.

Tunga era um personagem de si mesmo. Ele foi o primeiro artista brasileiro a ter uma obra exposta no museu do Louvre em Paris. Também expôs na Bienal de Veneza. Sua obra era carregada de simbolismo, com uso de ossos, crânios, dedais e agulhas. Aliás, Tunga era mestre em misturar diversos materiais, inclusive sua própria urina, coletada e engarrafada em diversos “tubos em ensaio”, como se fosse um bruxo, um alquimista.

Começou a carreira nas artes plásticas ainda na década de 70, com desenhos e esculturas. Traçava imagens figurativas com temas ousados, como na série de imagens do “Museu da Masturbação Infantil”, de 1974. Ainda na mesma época, ele começou a fazer instalações de diferentes materiais.

Na década de 80, ele montou a instalação “Ao”, em que mostra um filme feito no túnel Dois Irmãos (RJ). O trecho se repete infinitamente, como se a câmera andasse em círculos pelo caminho, não encontrando saída e nem entrada dentro daquela estrutura sem comunicação com o ambiente exterior. Um filme sem começo e fim.

Em uma entrevista disse: “Nós somos cobertos de cascas e representações que construímos de nós mesmos. E normalmente tentamos nos fazer representar por coisas que não são a nossa essência. Por isso, é importante buscar o strip-tease das coisas para ir além daquilo que está representado. E confrontar o nu de nós mesmos com o nu do mundo.” E continua: No ato de “fazer arte” o processo de transformação é contínuo. Não existe finitude – isso é um idealismo da arte. (Casa Vogue)

Inhotim_3

Galeria True Rouge em Inhotim

Tunga tem um espaço especial em Inhotim (Instituto localizado em Brumadinho, na proximidade de Belo Horizonte). Lá pode-se tentar entender sua arte. É como se o lugar fosse construído especialmente para abrigar sua obra, e não ao contrário. Foi uma longa convivência com Bernardo Paz, magnata das artes, dono do museu aberto, o maior da América Latina, se não for do mundo. O local abriga duas galerias dedicadas ao artista – “True Rouge” e “Psicoativa Tunga”. Cerca de 30 obras fazem parte do acervo do museu e estão expostas nas galerias e jardins do Instituto. Os trabalhos foram feitos ao longo de 30 anos da carreira do artista.

instalacao_do_artista_pernambucano_tunga

Instalação na Galeria Psicoativa, em Inhotim.

No Inhotim, a galeria “Psicoativa Tunga” é a maior do Instituto e conta com 2.200 m². Ela foi inaugurada em 2012, ano em que o artista exaltou a liberdade que o local oferece. “True Rouge” está no museu desde 2002, época da inauguração.

O artista se foi, mas sua obra permanece para sempre.

Sobre o autor

Solange Viana

Solange Viana é jornalista e galerista. Mora na Granja Viana há 12 anos. Possui uma microempresa de Assessoria de Imprensa & Comunição, especializada em cultura com destaque nas áreas de artes plásticas, cinema, arquitetura e design. Há 5 anos inaugurou um espaço dedicado a cultura na Granja, a Galeria de Arte e Fotografia Solange Viana, que tem como um dos objetivos principais, mostrar a arte dos moradores daqui.

http://galeriadearteefotografiasolangeviana.blogspot.com

Deixe um comentário