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O carnaval tem disso…

Escrito por Deborah Brum

Os excessos, talvez. Os brilhos e as maquiagens que escondem os rostos como máscaras nos relembram que aquele riso forçado, por detrás da maquiagem do palhaço do circo, era nosso também. Risos que ecoavam sob uma lona vazia.

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No conto Antes do baile verde, do livro homônimo de Lygia Fagundes Telles, a temática abordada é a experiência humana; em particular, o conflito de uma filha que deve decidir entre deixar seu pai moribundo em casa ou ir ao carnaval.

Na narrativa, signos teatrais são abordados: sons, gestos, maquiagem, cores, vestuário, etc, elementos que trazem uma dramaticidade ainda maior para o conflito moral.

Em Antes do baile verde, Tatisa, uma das personagens, está se preparando para ir ao carnaval. Com a ajuda da empregada, Lu, as duas pregam as lantejoulas da fantasia verde de Tatisa enquanto conversam. Ao longo do texto, o conflito ganha força com a estrutura narrativa construída pela autora, intercalando os diálogos com um narrador em terceira pessoa, observador, que não se envolve de forma significativa na história. O não-dito, o vazio, torna-se um elemento fundamental para potencializar o suspense.

Enquanto Tatisa se arruma para sair, fantasiada de verde – cor que permeia todo o livro e refere-se à morte –, seu pai, num outro quarto, está morrendo. É na voz de Lu que temos a revelação da morte iminente.

Nesse conflito entre vida e morte há um duplo que se apresenta pelas vozes de Lu e Tatisa. Enquanto a voz de Lu expressa a morte, que está dentro da casa de Tatisa, há a vida que pulsa fora, no carnaval.

Existe ainda dentro desse conflito um outro, menor, mas necessário para avivar ainda mais o principal: Lu está angustiada porque seu namorado, Raimundo, a espera lá embaixo e não gosta que ela se atrase.

Por várias vezes, Tatisa pede que Lu fique com seu pai. Propõe trocas, presentes, mas nada convence Lu. Desta vez, ela não irá ceder.

Os diálogos, ora nervosos, ora banais, dão a sensação do absurdo e é justamente desse absurdo que vêm o espanto e a vontade de continuar.

O narrador limita-se a guiar as cenas, desempenhando uma função de direção e organização do texto, sem um envolvimento emocional com o conflito. E, justamente por ser um narrador neutro, as vozes de Tatisa e Lu reverberam ainda mais. Assim, os diálogos ficam mais absurdos.

No final do conto, novamente, o leitor é lançado para um vazio, pois não há um final fechado. Embora Tatisa decida ir para o carnaval, o não-dito, mais uma vez, aparece com a culpa da filha que não é enfatizada: a morte trancafiada num quarto, o pai sem nome ou rosto e as lantejoulas deixadas para trás.

Esses excessos, provenientes do vazio, são encontrados também em conflitos cotidianos, quando alguém, por exemplo, ao se olhar no espelho, passa um batom vermelho porque um riso sincero nem sempre é fácil.

O vazio preenchido pelos excessos de um carnaval…

O carnaval tem disso.

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“Eu percebo que está começando a nascer um conto quando, ao analisar as personagens, vejo que elas são, de certo modo, limitadas. Elas têm que viver aquele instante com toda a força e a vitalidade que eu puder dar, porque nenhuma delas vai durar. Isso quer dizer que, com elas, eu preciso seduzir o leitor num tempo mínimo. Eu não vou ter a noite inteira para isso, com uísque, caviar, entende? Preciso ser rápida, infalível. O conto é, portanto, uma forma arrebatadora de sedução. É como um condenado à morte, que precisa aproveitar a última refeição, a última música, o último desejo, o último tudo.”
(trecho de entrevista de Lygia Fagundes Telles)

 

Sobre o autor

Deborah Brum

Artista Plástica com pós graduação em Arte Integrativa.
Atuou na área de Arte Educação Bienal. Hoje dedica-se às suas grandes paixões: filhos e a literatura. Ministra oficinas infantis e juvenis e é mediadora do Clube do Livro da Granja Viana.

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