Colunistas Crônica Jany Vargas

O clássico Papai Mamãe!

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Escrito por Jany Vargas

No fim de semana fiquei com raiva da minha amiga. Logo depois, quando eu repensava o diálogo que tínhamos tido, a reação vinha de novo, instantânea! Não conseguia explicar para mim porque fiquei tão brava com ela.

Dias depois consegui. Eu levantava a bola e ela cortava! Ou em outras palavras: eu escolhi dizer para ela coisas que não gosto em mim e sabia que ela ia falar a respeito. Por exemplo: Disse que meu maxilar estava com muita tensão e sabia que ela ia dizer que maxilar nessa configuração era raiva. E ela disse, e eu respondi que não era, que deveria ser tristeza. Ela silenciou e eu sabia o que ela estava pensando. Ela estava enxergando o que não gosto em mim. Raiva no maxilar, raiva dela, raiva escondida. Agora se procuro por ela, pela raiva, não sei aonde está, não sei porquê, mas meu maxilar está tenso como todos os dias, todos os minutos. Fico pesquisando essa tensão… ela não está só ali, está lá dentro do crânio, nos ombros…

Entendi também que quando temos uma pessoa com quem vivemos dialogando desagradavelmente na mente – um amor, um chefe, um amigo, inimigo, alguém aleatório no trânsito, minha amiga – significa que essa pessoa carrega o nosso ouro (conceito junguiano). Ou seja, ela está mobilizando nossos conteúdos que estão escondidos da nossa mente cotidiana.

Outro dia senti ciúmes, um ciúmes forte e irracional. Antes de cair na cilada de achar que era mesmo ciúme daquela pessoa resolvi ficar só com a mensagem, que era: “não ache ninguém mais interessante do que eu!”. Ao pensar isso tive uma visão: a chegada de um bebê novo na família. Vi aquele corpinho sendo recebido por braços amorosos e entendi o meu ciúmes. Não caio na tentação de explicar que tudo tem a ver com o passado. Tipo, ciúmes da minha irmã que nasceu depois de mim. Apesar de, claro, muitas vezes o desconforto ter raízes lá mesmo.

Na verdade, acredito mais que as questões, que essas pessoas que nos afetam mobilizam, são existenciais . Qual seria o entendimento relacionado à raiva? Resolvi então para me ajudar a me entender brincar de Pai do Céu e Mãe Terra. É assim: Pego a questão que a pessoa em questão ajudou a trazer a tona e pergunto para o Pai do Céu: “Você me aceita com raiva?”. Ele nunca responde, ele serve para dar o clarão do entendimento. No caso, a crença de que se tenho raiva sou má. Em seguida ouço a Mãe da Terra. Ela diz: “meus braços estão sempre aqui”.

Assim vou conversando comigo, descobrindo o que me rege, para ir transformando os venenos da mente (como propõe o budismo) em sabedoria. Sabedoria sobre mim, sobre os calos onde os sapatos me apertam, sobre os vespeiros onde costumo por a mão. Para não precisar ter mais conversas chatas com minha amiga. Para não precisar deixar a tensão tomar conta do meu corpinho, nem a raiva azedar meu passeio sem ao menos ter consciência do que está, de fato, acontecendo.

Valeu Pai, valeu Mãe! Com vocês fica mais fácil!

Sorry pela propaganda enganosa do título!!!!

Ilustração de Julia Vargas (quem sabe é esse o rosto da minha raiva!)

Sobre o autor

Jany Vargas

Transita no universo das Danças Circulares e é escritora. Escreve para levar ideias daqui para ali. Para contar histórias, falar do seu tempo, participar do diálogo, contribuir.

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